Um grupo de pessoas solto no mato por várias semanas, com tarefas a cumprir em troca de comida, repelente de insetos, cartas da família e dos amigos; pessoas confinadas em casas; famílias com problemas financeiros e sociais recebendo novas casas - na verdade mansões imensas -, cuja construção se acompanha ao longo do episódio; mulheres e homens têm seu armário esquadrinhado e saem para um banho de loja com a supervisão de stylists; uma loja de penhores e as negociações que os funcionários fazem ao longo dos dias; a customização de carros e motos; a rotina de estúdios de tatuagem, a história de cada tattoo feita lá e as vidas dos tatuadores; uma família de portadores de nanismo; noivas em busca de um vestido ideal para o casamento; adolescentes preparando a festa de debutante; uma disputa para ver quem faz os melhores cupcakes; competição entre estilistas e cabelereiros; a rotina de uma equipe que monta aquários de todos os tipos.
Ainda fico me perguntando sobre o que atrai tanto as pessoas para esse tipo de entretenimento e principalmente como o formato sobrevive, depois de tantos anos e depois que todo mundo já sabe que a realidade é inventada e a espontaneidade é roteirizada. Dá a impressão de que tudo já foi feito, não? Mas quando se pensa que todas as possibilidades já foram exploradas, pelo menos aquelas que ficam circunscritas a um hipotético e subjetivo círculo demarcando onde acaba o possível e aceitável e onde começa o absurdo, alguém vai lá e puxa a linha um pouquinho. Jogos Vorazes é uma grande crítica a esse modelo de entretenimento e à forma como ele serve a propósitos políticos e faz a gente pensar sobre a presença do absurdo e do cruel no que se oferece como diversão - é obviamente chocante imaginar um programa de televisão em que garotos brigam até a morte, mas não tem um componente imenso de miséria humana ficar assistindo a pessoas que bebem até cair, vomitam, choram, brigam?
Uma das coisas que me assombra é a forma como se espetaculariza o banal - uma briga trivial entre pais e filho adolescente, a negociação de uma antiguidade na loja de penhores, a preparação de pratos, decoração de ambientes, a escolha de vestidos de noiva e de docinhos para uma festa de casamento. Coisas que acontecem todo dia em todo lugar são revestidas de carga dramática, épica, como se fossem gigantescas batalhas decisivas para a vida das pessoas - não me digam que são, por favor, e que sou uma pessoa cínica demais só porque não consigo enxergar no trivial um drama gigantesco (Clarissa Vaughan e Mrs. Dalloway mandam beijo).
Por outro lado, se busca-se a dimensão de espetáculo na vida banal, procura-se também a banalização, a busca do corriqueiro na vida de "celebridades", gente que se supõe ser feita de matéria diferente dos outros mortais anônimos. Aproxima-se o público do ídolo, que ora-veja-só, gosta de comer as mesmas coisas que as pessoas "comuns", de repente até lava uma louça, faz compras, escolhe camisetas, lida com problemas domésticos (estou me lembrando de um Ozzy tartamudeante implicando com uma tatuagem da filha adolescente - o que ali era crível, dado o contexto?). Talvez, nos dois casos - dos shows de realidade com famosos e anônimos - a proposta seja "olhe para o outro para olhar para si", o público se identifica com o drama da tela, mas às vezes acho que a coisa toda resvala mesmo para o "olhe para o outro e esqueça de si": a catarse, a negação dos próprios dramas.
Quando será que se esgota a fórmula, o que conseguirão engendrar os roteiristas e produtores, qual será o próximo drama da vida real? Acho que ainda dá tempo de oferecer um novo conceito de entretenimento aos patrocinadores e espectadores, dá muita brecha inclusive pra revestir a coisa toda de biscoito fino, de pâtisserie sofisticadíssima, o que vai afastar aquela aura horrorosa de diversão pra "Homer Simpson", como diria aquele apresentador.
Um reality show dentro de uma biblioteca, que tal? Uma imensa biblioteca, com vários andares, salões de estudo, estantes intermináveis recheadas de todas as possibilidades - livros impressos, mídias variadas, mapas, obras de referência -, pontos de acesso a bases de dados do mundo todo. Nela se encerrariam duas dúzias de bibliotecários de perfis variados - a velhota ranzinza versadíssima nas fichinhas dos catálogos, o rapazote geek que se esqueceu de como se usa caneta e papel, o solteirão de meia-idade que resolve os conflitos dos colegas enquanto chefia uma equipe de mocinhas recém-formadas com o dever de catalogar a montanha de material que é comprada ou doada diariamente, a balzaquiana divorciada que não sabe se atende primeiro o telefone pra acudir a babá dos filhos pequenos ou se atende os usuários que não conseguem encontrar aquele livro que aparece disponível no sistema, o profeta do apocalipse que erra pelos corredores avisando que um dia aquela biblioteca vai acabar porque ninguém mais vai utilizar livros em papel....quanto drama existe por trás dessas vidas bestas, dessas preocupações pontuais, quanto conflito pessoal se desenrola no meio dessas estantes?
Se alguém conseguir tirar espetáculo disso então teremos alcançado a Fronteira Final e será um sinal de que sim, o segmento dos reality shows alcançou um novo patamar: tudo é possível.
"Eye on the TV
'cause tragedy thrills me
Whatever flavour
It happens to be like;
Killed by the husband
Drowned by the ocean
Shot by his own son
She used the poison in his tea
And kissed him goodbye
That's my kind of story
It's no fun 'til someone dies."
"Vicarious" - Tool
Um comentário:
fechou com chave de ouro!
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