sábado, 28 de maio de 2016

Somente o necessário

Um dia o amigo querido, que já estivera no mesmo vagão de trenzinho fazendo a mesma volta, disse que haveria uma temporada de euforia, de onipotência, de efervescência. É claro que eu me neguei a acreditar, "sou/estou bem resolvida demais pra isso".

É claro que houve uma temporada em que pude tudo, quis tudo, ampliei horizontes e limites. Estive fora uns dias numa onda diferente e provei tantas frutas que te deixariam tonta. Daí um dia a velocidade das rodas começou a diminuir, a composição parou, eu desci.

Então subiu uma névoa, uma poeira densa, como se algo imenso tivesse sido jogado de grande altura, deixando suspensas partículas infinitas. Através daquela nuvem eu não via e ouvia, mal via ou sentia a mim mesmo, ela me apartava do mundo.

Quando tudo se dissipou eu vi que tinha realmente cumprido o destino profetizado pelo amigo e acreditado que aquela vida era necessária e aquelas cores, os sons, movimentos frenéticos e as pessoas eram necessários também. Não eram - provavelmente necessários eram os efeitos sobre mim naquele momento (oi, querido, onde quer que você esteja, um beijo).

O silêncio nunca me caiu tão bem, a quietude e a forma como me adaptei aos dois e às peculiaridades de um tempo diferente me trouxeram uma paz inédita. Então talvez na quarta-feira eu ligue o computador, conecte o Skype e diga "Eu não preciso mais dos olhos e das palavras de ninguém. Eu sou necessária só para mim mesma. Acho que estou livre."

quinta-feira, 26 de maio de 2016

As voltas

Quando éramos graduandos bocoiós costumávamos deturpar ideias e conceitos. Assim, só pra fins humorísticos, pra tentar extrair alguma gozação de algo sério, sisudo, importante - eu disse que eramos bocoiós, galhofeiros. Uma dessas coisas era o mito do eterno retorno, que mais de uma vez avacalhamos trazendo-o à força pra microscópica dimensão das nossas vidas graduandas galhofeiras. Então não só o Universo decairia, se destruiria e renasceria, mas nós também ficaríamos em moto contínuo passando pelos mesmos pontos e lidando com os mesmos conflitos e situações até o fim. Como se ficássemos dando voltas num trenzinho de parque, aqueles pra criancinhas.

Mas pândega à parte, não é que existe algo de verdadeiro nessa ideia? Às vezes a gente acorda e tá no mesmo vagãozinho, ou patinho, ou porquinho, ou abelhinha. Ou conseguimos pular de vagão (um mais colorido, talvez? Um bicho que esteja mais no topo da cadeia alimentar?) mas as voltas continuam e passam pelos mesmos lugares.

É o que os não-incréus dizem sobre "Deus castiga" (nunca entendi essa fé masoquista, essa adoração a uma entidade vingativa e punitiva. Um bedel, juiz e executor ao mesmo tempo agindo eternidade afora). Ou os místicos dizem "o Universo devolve".

Acho cruel. Não acredito em nada, nem em deuses, nem no semáforo nem na força das instituições tradicionais e aprendi a não acreditar nem nas pessoas, às vezes nem em mim ("sometimes my mind plays tricks on me"). Prefiro dizer que o mundo dá umas voltas doidas e às vezes a gente está no carrinho que percorre o traçado da pista, às vezes a gente já deu a voltinha e observa do lado de fora, pensando "já passei aí".


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Será que ela vem?

Eu sei que ela vai chegar ou se aproxima porque é quase um beijo de dementador. É uma espécie de ralo que se posiciona sob meus pés e leva num fluxo contínuo tudo o que me faz andar leve, toda a expectativa, os planos e as vontades.

Eu sei que ela chegou não porque perceba um peso, mas porque sinta um monte de ausências dentro de mim. E porque elas não me afligem, de qualquer forma. Sair, correr, me vestir, ir ligar a televisão, chamar qualquer pessoa pra conversar, rir. Interessar-me, investir, arriscar, ver o sol, abrir a geladeira, deixar que a música me desligue do mundo. Abrir as janelas da casa e da alma. Resistir. Prefiro assim, tudo escuro e o mais silencioso possível, a claridade e os sons lá fora, longe de mim. E eu não me importo, nem por um instante.

Ela está aqui.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Reveses e Capricórnio: quase um epílogo

A crise. O golpe. O fla-flu. Os formandos em Medicina exaltando, em suas becas, o deputado homofóbico, machista e violento. O tempo que esfria-esquenta-esfria-esquenta. Os editores em polvorosa, o trabalho que se empilha. Os triglicérides que foram de 56 pra 206 em exatamente um ano. O peso que não desce porque insisto em preencher vazios com açúcar e demais carboidratos simples (claro que agora parei). Mais uma dorzinha acolá, que somada a uns 15 dias de crise depressiva me tirou da corrida por 3 semanas, e agora o retorno é doloroso e visualmente grotesco. As contas: quebra máquina, carro pra revisão, licenciamento, habilitação, multas, retorno ao psiquiatra. Os pneus estão ruins, tem que trocar. O celular vai-não-vai. Dor de cabeça. A Netflix vai subir. Roupas de frio. O quilo da pera, o preço do tomate. Não consigo levantar cedo pra nadar, se levanto fico com sono, levo bronca da terapeuta porque é preciso dormir bem. A cabeça zunindo. Desistências. Desânimos.

Mas a cabeça dribla a alma meio surrada e negativa e insiste na piada de palhaço meio tristonho, daqueles quadros meio cafonas, meio assustadores: na hora de pagar a facada da revisão do carro ("esse valor podemos parcelar só até 4x, senhora") passo o cartão, digito a senha e verifico, aliviada, que o limite ainda não foi batido, mas falta pouco, quero nem ver a fatura no começo do mês. Faço um cálculo rápido e cogito entrar para o ramo do entretenimento adulto, aos 40 e com estrias na pancinha.

Pego a chave com a atendente, entro no carro, conserto a altura e a distância do banco e penso "olha só, capricorniano, estou triste, cansada, acima do peso, de nariz inchado por causa da rinite, não faço unhas há meses e estou de cara lavada porque não tive tempo nem vontade de nada, mas agora dá pra passear de carro comigo. Tá regulado e limpinho, que tal, vamos dar uma voltinha na avenida?".

E não disse mais nada a mim mesma.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Que isso não pareça uma apresentação de powerpoint cafona

Que dê abraços quentes e tenha aperto de mão firme. Que não te julgue. Que não te diminua e não te compare (porra, o que custa não comparar?). Que te acompanhe. Que saiba hora de começar. E de parar. Que não te explique tudo. Que não se explique o tempo todo mas tenha a educação de não te largar no vácuo, pensando se vai procurar na polícia, nos hospitais e necrotérios. Que não exija prestação de contas, quaisquer que sejam. Que não te dê senhas. Nem as peça. Que não te demande o truque da transformação em outra pessoa. Que resista quando você demandar o mesmo. Que compreenda quando você explicar que não é questão de "animação" (já viram que fofo aquele post de facebook que ensina a pessoa a fazer um "casulinho" de cobertor pra confortar outra pessoa?). Que te deixe ficar em silêncio, por que não? Que peça seus silêncios e seu tempo também. Que não te afaste com grosseria injustificada. Que compreenda que pedir desculpa pra porcelana não faz com que ela se emende de volta sem marca - até porque às vezes tem aquele pedacinho que entra debaixo dos móveis ou nos vãos dos tacos já meio antigos e sem manutenção devida. Que te mande à merda quando você começar a usar de p(m)aternalismo e condescendência. Que não te trate como criança nem pessoa com problemas cognitivos. Que não desista de si e nem de você, oremos, desistência é muito triste. Que conheça o conceito de empatia e o aplique. Que saiba que generosidade com iguais não é generosidade, é tapinha nas costas. Que não espere que você peça socorro, porque te observa mesmo de longe. Que não minta, é o básico. Que seja de qualquer porcaria de signo. Must love dogs. Cats. Birds and the bees and the flowers and the trees. Que ouça música, no silêncio também. Que não te avacalhe muito por causa das suas listas e das coisas pueris que você escreve. Não muito, um pouco só.

O básico, apenas.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Enta.

Alguém (que pode ser entendido como uma pessoa ou uma força imaterial ou uma linha de senso comum coletivo ou mesmo uma alucinação corpórea ou incorpórea, ou seja, qualquer coisa) me fez crer que os 40 eram os novos 30, com a vantagem estupenda de que com a a beleza madura estabelecida viriam também uma certa experiência e a sapiência e segurança de quem já passou por poucas e boas. Então, olha, fiz 40 há algumas semanas. Estou esperando, já faço jus. Cadê? Por que acordo com conflitos de 19? Veja bem, os conflitos, não a bunda, os peitos, a barriga, o rostinho, o brilho no olhar. Continuo passando vergonha no consultório da nutricionista, continuo me arrastando na pista de corrida (agora voltando de mais duas semanas paradas por conta de dor no quadril) e estou pronta a responder a qualquer pergunta com crise de choro e bater de portas. Aos 40. Não incorporei o mantra da autoaceitação e de quebra acho que quando o faço estou na verdade sendo autoindulgente, não resolvi o problema da crença de que sou uma fraude - pelo contrário, você sabe o que é viver por 40 anos comigo? Nem minha mãe sabe, nem ela aguentaria. Não voltei a crer em grande-amor-da-vida. Estou sem vontade de procurar qualquer sombra disso que seja. 40. 40. 40. O que faço de melhor agora que cheguei? Ah, tenho que esperar mais? Tá certo então. Posso comer alguma bobagem enquanto espero? Sim, eu sei, o metabolismo vai indo pra casa do caralho e eu engordo mais fácil e demoro mais a perder peso. Entendi, deixa pra lá.

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A irmã de um conhecido do meu pai surtou: tirou a roupa e saiu pela rua. Foi recolhida e internada em um hospital psiquiátrico. Dizem que estava sem tomar remédios. Sabe o que acontece agora? Meu pai fala comigo e me pergunta se estou tomando meus remédios direitinho. Nem sei o que penso, fico feliz porque meu pai se preocupa comigo? Fico deprimida porque ele acha que existe um risco real de eu não tomar remédios, surtar e sair pelada pela rua? Fico deprimida porque existe sim um risco real de eu não tomar remédios, surtar e sair pelada pela rua? Certo, deprimida já estou, mas olha, pai, quero dizer que se eu cogitar tirar a roupa na frente de alguém, mesmo medicada e consciente, já pode ligar pra viatura vir me buscar.

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Ouvi ontem uma palestra motivacional (sim, sério. Lembre-se, eu já ouvi palestra do Pondé em ambiente corporativo. Fui obrigada. Pelo menos podia resmungar e fazer careta, era por videoconferência) e o sujeito, depois de fazer uma ótima associação entre a "escola da tristeza", em que o aluno fica o ano todo esperando passar de ano, que prepara para o "mercado de trabalho da tristeza", em que o funcionário passa o tempo esperando o fim do expediente, o fim de semana, os feriados, as férias, a aposentadoria, concluiu que passamos o tempo esperando a vida passar. O foco fica tanto no depois que o agora fica esquecido. Mas daí, cara, agora tá complicado. Borrado, ruim, triste, seja o que for. Como faz pra viver a vida sem expectativa (eu sei, "crie cavalos, peixes, camaleões, cabras, crie pulgas amestradas mas não crie expectativas", diz a sabedoria de rede social)? Como faz pra negar que no fim das contas não vivemos pra acordar-trabalhar-dormir-acordar-etc etc etc?

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Se beber não dirija. Não telefone. Não tecle mensagem de whatsapp. Se acordar mal não facebooque. Não blogue. Não exista, de preferência. Durma, se possível, até passar.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Aquário

Quando ando por São Paulo fico intrigada com a forma como as pessoas dominam sua cidade. Como ocupam seu espaço, como se locomovem. É como se elas tivessem um código próprio, um mundo alternativo - o que não deixa de ser verdade. Mas penso em como deve ser transpor aqueles espaços todos, compreender (ou não) a lógica das coisas e o andamento do tempo, que corre em ritmo diferente do tempo daqui.

Coisas de matuta, roceira. Que ainda olha pro topo dos prédios. Que ainda não considera triviais os nomes das ruas.

Pensei em como você domina seu tempo e seu espaço. O que ouve? O que faz ao longo do dia? Como lida com as tarefas de casa? Por onde espalha os livros que está lendo? No que pensa quando está em silêncio, quando perde o sono? O que coloca no carrinho do supermercado?

Pra São Paulo tem mapa. Tem Waze. Tem metrô. Tem gente pra ligar e dizer "oi, me busca, eu me perdi". Tenho menos medo de me arriscar naquelas ruas.

UPDATE/CONTINUAÇÃO: E seus caminhos não são pros meus pés. Com meus sapatos não consigo ir longe sem tropeçar. Pena.