In the clear


Cada faixa de Sonic Highways, que saiu ano passado, foi gravada em uma cidade dos EUA.
A primeira pela qual me apaixonei incondicionalmente foi gravada em Nova Orleans, o que me é pessoalmente significativo (peça pra que eu diga uma parte do país que queria conhecer).

E então hoje, no carro,

There are days I might not make it
There are days i might start breakin’
But when the rains starts coming down as heavy as the air
You can find me dancing with the spirits
It’s in the square
God damn I swear.



(estou esperando por essa chuva aí, que vai me colocar pra dançar. Ou me encontrar a dançar)

O que você faria se NÃO tivesse só mais um dia?

O que você faria se fosse vampiro?

É possível que adotasse uma postura infantil, voraz, deslumbrada e hedonista, como a Claudia de Entrevista com o vampiro. Pode ser que se retraísse, como Louis. Pode ser que sucumbisse ao tédio de uma vida eterna de colegial rico, como o Edward de (irrrc) Crepúsculo (estou pensando agora que devia ser mais solidária ao rapaz coruscante: imagina passar a eternidade frequentando aula de Química?).

Centenas de possibilidades. O que você faria com a eternidade à sua disposição?

Adam e Eve, de Amantes eternos, escolheram se dedicar a suas paixões: literatura, música. Arte. Cultura. Reclusos, casados um com o outro e geograficamente distantes, eles se encontram, relembram os passos da civilização ocidental  que puderam presenciar, celebram a efervescência cultural de que participaram.

É como se estivessem lá desde o princípio (Adam & Eve, pois não?). Celebram a vida sem pressa, mas são obrigados a flertar com a mortalidade, mesmo em sua condição. Até os vampiros encontram obstáculos, e os mais modernos deles não são exceção. Talvez mude um pouco a ordem desses problemas, quem sabe? Não há exatamente caçadores, mas há outras questões mais mundanas - onde viver? E a alimentação? Há consequências atreladas às escolhas que eles fazem, a vida nas sombras exige alguns cuidados.

Para o casal de vampiros há outra questão: o ajuste de duas criaturas com bagagem cultural incomensurável vivendo em um mundo decadente, poluído pela mentalidade consumista e predatória dos mortais, os "zumbis". Estes não param para contemplar a beleza do mundo e para refletir sobre sua condição - talvez também por não terem tempo e nem a perspectiva de futuro que possuem Adam e Eve, sobreviventes de muitas gerações. É muito simbólico, então, que Adam viva na Detroit apagada, pobre, e que passe de carro numa rua qualquer, de péssimo aspecto, e aponte à esposa uma casa, dizendo "Jack White morou ali". "Ah, legal, eu adoro o Jack White", ela responde. Eles perduram, a casa onde nasceu o sujeito talentosíssimo não (e nem ele - ou não? ;) ). Eve vive em Tânger, cidade antiga, lotada de ruelas, muros e portas antigas, por onde se passa como quem viaja no tempo. As duas cidades retratam o que já foi. Os dois amantes ficaram, como documentos ~vivos~ da História. Eles são a própria permanência, mas confrontados em certo momento com o memento mori que assombra a todos nós continuamente.

O filme é linear, lento. Não há propriamente uma história a ser contada, mas a questão é acompanhar, no mesmo passo dos protagonistas (isso significa então que o ritmo da narrativa é um recurso para igualar o espectador "zumbi" aos vampiros que têm todo tempo do mundo disponível), um olhar antigo sobre um mundo novo, mas precisando de contínua reinvenção e melhoria.

Ah, e nunca houve vampiros como Tilda e Tom. Não, não, o Cruise não. Nem vou colocar foto aqui, é pra ir lá ver.


(E tem essa cena de abertura. O tempo cíclico, a vida de Adam e Eve girando em torno deles mesmos. Acho hipnotizante, de verdade. Assisto e reassisto.)



A primeira vez

Tenho duas memórias diferentes sobre meu "primeiro filme de gente grande no cinema". Em duas situações fui levada pela minha mãe a um dos cinemas da cidade. As salas eram daquelas que ficavam na rua, não tinha xópem e muito menos multiplex ainda, criançada. Elas tinham nomes próprios e não números.

Dois dos cinemas (São Luiz e Odeon) ficavam bem no centrão da cidade, no mesmo quarteirão e um deles era grande, cadeiras com encosto de madeira e aquela plateia lá no alto, quase um camarote. Um terceiro cinema, Bristol, ficava um pouco mais afastado do centro. e eu o achava mais "moderno". O quarto era no bairro da Estação, lá longe, e só passava pornografia. Eu achava graça em ligar para o número da Telesp que transmitia a programação cinematográfica da semana e ouvir o nome dos filmes que passavam nesse cine, chamado Santo Antônio (pois é).

O mais provável é que o primeiro filme de gente grande que vi tenha sido Amadeus, e não Conta comigo, se considerarmos a data de lançamento de cada um deles. Se não me engano foi uma sessão noturna, o suficiente pra que eu me sentisse importante, grande, cercada por gente maior e não por montes de crianças vendo filmes de crianças. O cheiro da sala acarpetada - de azul, se não me engano - até as paredes, "Imagine" tocando ao fundo. Quando meu filho trouxe essa música da aula de bateria para praticar em casa, inclusive, a lembrança que me tomou foi a do cinema à meia-luz, as poltronas brancas, as pessoas conversando antes da projeção.

Não me lembro bem do que comentei com minha mãe sobre o filme e acho que não entendi muito bem qual era a questão entre Mozart e Salieri. Mas gostei das músicas, do figurino (sobretudo das perucas), da gargalhada de Tom Hulce, é claro. Fiquei impressionada com o enterro de alguém como indigente (do próprio Mozart, será? Nunca mais revi o filme!), envolvido em pano, direto na terra.

(OK, oficialmente estou soando como aquelas velhotas memorialistas que escrevem em todo jornal de cidade do interior. Em Campinas era uma senhorinha que falava do colégio Culto à Ciência semana sim, outra também)

Pois bem, ontem o menino foi ver seu primeiro filme de adulto no cinema. Pra começar é complicada essa definição, né? O que é "de adulto"? Violência e mulher pelada? Novela tem tudo isso e criançada assiste (meu pequeno alienígena não, porque novela não é hábito da casa). Ele já viu de trás pra frente os filmes do Peter Jackson baseados em Tolkien e é um massacre do começo ao fim, mas ele não está habituado a nudez e sexo na tela. Filme de gente grande tem dilemas de gente grande, talvez seja isso. Filme de gente grande tem tramas mais complexas.

O filme era Missão Impossível, e em meio às perseguições e lutas acrobáticas e a toda a pancadaria eu confessei a ele que quando era adolescente aquele ator do filme era o must e eu passei muito tempo colecionando fotos dele recortadas de revistas e jornais. Quando juntei uma certa quantidade fui lá e cobri uma capa de caderno com as figuras e voilà, um caderno só com a carinha linda do Tom Cruise estampada.

O menino sorriu pra mim, encostou a cabeça no meu ombro e continuou assistindo a mais uma cena frenética de perseguição em alta velocidade.





A ironia das coisas

Olha só que engraçado: eu ia escrever sobre memórias.

(sempre elas, tenham paciência com a historiadora. Já viram nos arquivos ou na lista de marcadores ali embaixo a quantidade de coisa escrita sobre isso? Então vocês já sabiam.)

Acordei de madrugada, encadeei um monte de ideias, pensei "opa, amanhã escrevo". Voltei a dormir.

Sumiu tudo.

Ouçam uma musiquinha enquanto eu me lembro o que é que ia fazer e eu vou lavar uma louça pra ver se acendo a faísca mental novamente.


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