Aquário

Quando ando por São Paulo fico intrigada com a forma como as pessoas dominam sua cidade. Como ocupam seu espaço, como se locomovem. É como se elas tivessem um código próprio, um mundo alternativo - o que não deixa de ser verdade. Mas penso em como deve ser transpor aqueles espaços todos, compreender (ou não) a lógica das coisas e o andamento do tempo, que corre em ritmo diferente do tempo daqui.

Coisas de matuta, roceira. Que ainda olha pro topo dos prédios. Que ainda não considera triviais os nomes das ruas.

Pensei em como você domina seu tempo e seu espaço. O que ouve? O que faz ao longo do dia? Como lida com as tarefas de casa? Por onde espalha os livros que está lendo? No que pensa quando está em silêncio, quando perde o sono? O que coloca no carrinho do supermercado?

Pra São Paulo tem mapa. Tem Waze. Tem metrô. Tem gente pra ligar e dizer "oi, me busca, eu me perdi". Tenho menos medo de me arriscar naquelas ruas.


Capricórnio

Você desafiou meu ceticismo. Eu quase olhava em volta procurando as câmeras da pegadinha. No final daquele primeiro café me perguntei o que você havia enxergado. O que procurava em mim. O que havia encontrado até ali, depois de uma hora ou pouco mais. Eu acho que me desculpei por estar descomposta pelo calor e pelas tarefas da tarde, você bebeu uma cerveja e eu não sei o que pedi. "Não bebo", eu disse. Mas aceitei o desafio. Sempre aceito.

Os dias seguintes passei oscilando entre o espanto, a surpresa, uma necessidade absurda de agradar e me fazer perceber e o encanto; este último ganhou de lavada.

Suas mãos grandes, a barba por fazer numa manhã de domingo, os cabelos finos, a provocação política. O ar de quem sabe exatamente o que fazer. O silêncio compenetrado. Só vi você hesitando duas vezes - na primeira manhã, antes de me pegar pela mão e me levar até seu carro, e na última noite, deixando uma pista clara de que não queria estar aqui. Só eu não vi. Ou vi sem querer.

Depois senti sua falta. Um misto de despeito com orgulho ferido e saudade. É possível que eu tenha lamentado o fim daquilo que nem tinha nome ou categoria porque tratava-se da forma como eu me sentia com você. Eu era caos demais na sua vida organizada: meu carro sujo, minhas pilhas de livros, minhas tatuagens, meu temperamento intempestivo e impaciente, minhas opiniões talvez um pouco radicais pra você. Mas eu me sentia ao mesmo tempo poderosa e pequena ao seu lado - e talvez estivesse aí a mágica toda da coisa.

Então um dia, muito tempo depois, te disse que capricornianos são malvados e sem coração. Quis te provocar: eu sei que habitamos mundos diferentes e é só isso. Ainda sou grata por você ter sido parte do meu por alguns dias (lembra do que escrevi no seu aniversário?). E não há como disfarçar a saudade de quem eu fui perto de você.

Ouch!

Eu me vi com tanta coisa pra escrever aqui só que me dei conta de que era tudo tão pessoal. Tão dolorido e pessoal. E então não, não posso escrever aqui. Não posso hoje. Não posso ainda? Não posso nunca mais?

Sei lá. Não posso, só.

Então vim dizer que são 22:27 e eu estou sem fome, segurando a vontade de chorar ouvindo música retrô (sim, agora eu sou uma quarentona, desculpa aí sociedade, desculpa Balzac, até nunca mais. Poupem-me da baboseira de "loba", "cougar", "bonitona", "inteiraça" e esse monte de idiotice que dizem pra elogiar a gente quando a gente não se sente lá muito elogiável. Mas então, música de adolescência é oficialmente retrôzona - e olha aquelas roupas, olha aqueles cabelos. Aquela filmagem. Que horror.) meio brega. Fim de festa.

É que as vezes o mundo me intoxica e eu mesma me intoxico. Tomo um monte de tapa metafórico na mão na terapia mas continuo me intoxicando, meio sem e meio por querer. Old habits die hard.


Estive fora uns dias.

* Uma das questões que me intrigava mais quando fazia parte do Blogueiras Feministas ("irrrrc, você e esse seu feminismo") era quando se discutia o problema chamado de "pregação para convertidos". Aquilo de você escolher cuidadosamente seu círculo de contatos nas redes sociais de acordo com uma série de afinidades e manter à vista apenas aquilo que não é dissonante e incômodo. Você distribui cliques, likes, coraçõezinhos, ha-has, e você também os recebe pelo que posta, que provavelmente estará em consonância com as ideias de seus seguidores. Todos se apertam as mãos, se dão tapinhas nas costas, parabéns aí, hein, e fim. A coisa parece que vai pra frente mas na verdade continua estacionada ali, dentro da bolha.

Então essa semana, por conta de uma reação pouco efusiva a um projeto, vinda de um grupo de pessoas com características bem específicas, tenho pensado bastante nisso: de como transpor resistências, como fazer uma aproximação sem hostilidade e também sem provocá-la nos interlocutores. Mais do que boa vizinhança gostaria de simpatia, empatia e parceria. Gostaria de não ser condescendente mas também de não fazer grandes concessões que enfraqueçam a pauta.

Acho que este vai ser o projeto mais custoso de todos, pela dificuldade em vencer resistências e pelo longo prazo e pela paciência que desde já ele demanda. *


* * As pessoas rompem laços por causa de futebol. As pessoas rompem laços por causa de política. As pessoas rompem laços por causa de religião. As pessoas rompem laços por causa de tantas razões. Muitas tão voláteis e tão risíveis. Pessoalmente acredito que se as relações pessoais de todos conseguirem sobreviver a 2016 então não deverão mais se dissolver. A permanência delas deverá ser comemorada anualmente como se fosse um aniversário de casamento. Parece mais que justo, dado o contexto. * *


* * *  "Você já viu que quando está muito incomodada fica aflita pra cortar cabelo?". Eu devia ter respondido que fico também com vontade de usar roupas espalhafatosas e maquiagem. Always giving parties to cover the silence, etc. * * *



* * * * Mais de dois anos de terapia semanal, pontualmente. Ano e meio de frequência mensal ou bimestral ao consultório do psiquiatra e à farmácia, preenchendo formulários de venda controlada de medicamentos com meus dados pessoais. Não contei quantos comprimidos engolidos nesse meio tempo, não pretendo ("pacientes psiquiátricos não devem ler bula", diz minha junta médica psi, porque é alto o risco de susto e consequente abandono do tratamento. Eu digo que também não se deve tentar estimar a quantidade de comprimidos mandados goela abaixo. Engole isso aí e deixa pra lá).


Mas como eu disse, tudo isso aí, noves-fora o dinheiro investido. E eu ainda não aprendi a dar de ombros frente a situações, não aprendi que uma hora a tralha faz um calombo inconfundível debaixo do tapete, que fica feio e fedido, podre. E daí não adianta tentar sublimar tudo isso com música, comida, esporte, pessoas. Meu subconsciente está dando avisos dolorosos de que estou abusando da cara de paisagem perante mim mesma. * * * *


* * * * * Este post muito bom da Marina, colega da ECA-USP, explica o que já dissemos tanto sobre o perfil de parte da nossa clientela, principalmente aqui onde fico. Uma mistura incômoda de falta de traquejo de leitura, pesquisa e frequência a instituições ligadas a essas atividades (sim, estou falando de bibliotecas, de centros culturais, desse negócio todo), de noção de que o som do tilintar de moedas encobre qualquer outro ruído ou mesmo o vazio silencioso, e a crença de que instituições públicas podem sim ser lugares de privilégio, desde que devidamente recompensadas. É público, ali (aqui!) são todos iguais, mas uns são mais iguais que os outros. E quem é menos igual na verdade chia porque quer ser "mais igual". * * * * *


* * * * * * Eu sempre digo que sou uma farsa: canto perfeitamente o mantra "isso vai se resolver, vai dar tudo certo", só não canto pra mim. O som não reverbera dentro de mim. Mutreta ambulante.* * * * * *

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