terça-feira, 1 de julho de 2014

Há dias

Em que o trivial e automático surpreende. E preenche espaços, por algum tempo, não importa quanto. Dias em que você enxerga mais pra frente e era disso que precisava na hora.



terça-feira, 27 de maio de 2014

Orange is the New Black e empatia

Estou esperando a segunda temporada de Orange is the new black estrear com uma razoável ansiedade. Péssima espectadora de séries que sou, incapaz de acompanhar horários e canais de televisão (eu diria que Netflix quase me salvou, ainda tenho temporadas pendentes de ao menos duas produções. Não, pelo menos três. Não, quatr...bom, deixa pra lá), procrastinadora e preguiçosa, segui essa quase com dó de gastar os capítulos todos.

A despeito de críticas que condenaram os estereótipos de mulheres detentas apresentados e o que eu chamo de índice de mirabolância do roteiro, gostei sobretudo da abordagem direta e que achei pouco carregada de moralismo. Não existiu ali juízo de valor ou moral das histórias apresentadas a cada episódio. São fragmentos de vida presente e passada de mulheres que foram parar na cadeia, e é ali que as vidas delas se entretecem. Seria muito fácil colocar todo mundo pra descer a ladeira da lição edificante, de valor pedagógico, e não é o que acontece.

Daí veio o livro, que eu já namorava na versão original mas a fila de leitura não chegava a ele. Pois chegou, o intenso Sal que a Rita indicou que me espere mais uns dias, já continuo. De sábado pra cá já tenho quase 1/3 da leitura feita, Piper começa a descrever com mais detalhes sua rotina na penitenciária e me pergunto o que mais vem pela frente, sem me importar com o que há de dissonante entre versão escrita e versão filmada.

Ainda não ajustei meus olhos, não acertei meu tom de leitora, só o ritmo, muito rápido, casado com a inevitável transposição de rostos da tela pro papel. Mas chama a atenção até agora a mesma ausência de "moral da história" que percebi na série e também o cuidado com a descrição da rotina e das pessoas que dividiram com a autora o espaço confinado do presídio.

É engraçado também como a gente se prende a alguns padrões morais, de qualquer forma. A descrição da prisão e das condições de vida das mulheres nem de longe evoca as prisões femininas brasileiras, em qualquer aspecto, e às vezes me pego pensando em comparações que atribuem à prisão gringa um status de quase paraíso perto dos pulgueiros em que encerram humanos para cumprir pena ou aguardar julgamento no nosso país. Como se fosse possível, como se fosse cabível. Daí me pergunto se o que me comove na solidariedade e nas reflexões da autora poderia comover a todos ou se a evocação de "paraíso" prevaleceria - existe entre nós a curiosa ideia de que o detento é um "privilegiado" (OI?) que come e dorme às custas de todos nós, Cidadãos de Bem, então por que se comover com a vida de mulheres cumprindo pena em locais onde têm cama, latrina, chuveiro, roupa e comida de graça? Daí pensei nas cenas pavorosas de miséria humana e indignidade que lemos e vimos em Carandiru (reclamem do filme à vontade mas deixem o livro em paz, por favor). Pensei nas imagens das reportagens, inclusive nos registros feitos após a desativação do complexo, pensei nas notícias sobre superlotação de cadeias, sobre condições de vida em presídios, sobre mulheres dependendo de doação de produtos básicos de higiene pessoal (absorventes - alguém acha isso luxo?), e concluí que quem ainda confunde condenação e cumprimento de pena com vingança e considera que dignidade não é um direito e sim um privilégio não é capaz de ter empatia com ninguém além de seus pares. Lamento tanto.

Volto ao meu livro, então.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Celebração

Tem uma tag de Instagram que é #100happydays e pelo que entendi a pessoa vai postando 100 dias legais, coisas felizes (como eu sempre digo, o instagrão é o reino da Felicidade Eterna e da Motivação Inquebrantável, lá não tem tristeza nem desânimo e nem sutiã descombinando com calcinha) etc. e resolvi transpor 1/100 da brincadeira pra cá.


Eu tenho um emprego legal. Que me paga bem pra padrões interioranos. Que envolve atividades de que gosto. Que tem um horário de expediente que me permite estar em casa de dia. Que é seguro e limpinho (sim, muito importante o "limpinho" pra quem já trabalhou em arquivo histórico começando do basicão de abrir caixa encostada há décadas e limpar papel com trincha, folha por folha, e também pra quem passou vários anos saindo do trabalho empoada de giz).

E eu tenho um emprego que me permite ouvir música. Eventualmente mexer os pezinhos debaixo da mesa e bater cabeça um pouquinho (dançar já é demais, mas quando eu trabalhava sozinha eu cantava).

É isso, só vim me gabar mesmo, boa noite pra vocês.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Desejo, necessidade e vontade

Deve ter gente que acha Love, actually um filme bunda, meloso, baboseira natalina, já eu acho que é pode ser meloso mas não bunda nem raso (sou ambivalente quanto ao lance de Natal, que é a comemoração que mais detesto) - sei lá, vai ver eu sou rasa. Bom, deixa pra lá. Mas eu gosto de ver pra chorar e choro porque fico me alternando nos papeis das pessoas ali. Já me vi em tudo quanto é canto e tô pensando se é isso o negócio legal dele, permitir que o telespectador meloso, carente, bunda e raso se identifique com os personagens e seus dileminhas ali.

Daí que lavava louça (atividade que todo mundo sabe que é a maior geradora de insight que existe) e ruminava terapia, posto que é segunda-feira. E então lembrei do Alan Rickman, o chefe cinquentão, telefonando pra secretária linda e jovem e insinuante com quem flerta, enquanto acompanhava entediado e resignado a esposa nas compras de Natal.

Daí ele diz pra ela que está fazendo compras e lembrou dela, pergunta se tem algo de que ela precise que ele possa comprar - alguma coisa tipo grampos, bloquinho de papel, lápis, caneta, talvez? E ela responde "I don't want something I need. I want something I want. Something pretty."

Então ele compra pra ela um colar com pingente de coração - que gera duas outras sequências que não entram aqui no contexto -, que ela aparece usando quando aparentemente passa a noite de Natal sozinha em casa.

Ter algo de que não se precisa, melhor que isso é ter sem pedir. Será que é disso que se trata a coisa toda?

Do que a gente precisa?

sexta-feira, 28 de março de 2014

Carta a um visitante anônimo e ocasional

Eu era mais escutadora de FM do que qualquer coisa, ouvia também o que tocasse no toca-fitas do carro ou na vitrola (sim) de casa, no aparelho de som da vó em Ribeirão. Não tive uma adolescência revortadinha-escutadora-de-metal-e-punk. Ouvi de tudo - do rock clássico à música de câmara.

Daí você tinha um mundo particular e mexeu pra caramba com o meu gosto musical, com as minhas referências e me apresentou uma montanha de coisa que eu não passo dois dias sem ouvir. Sou tão grata por isso.

(Não é só o fato de eu ter fases da vida marcadas por músicas ou ritmos específicos, mas as pessoas e o meu relacionamento com elas têm som, trilha sonora, gênero musical.)

Então um beijo pra você que foi o cara do punk e do hardcore. Quando passar por aqui você vai saber que esse post nostálgico de sexta à noite é pra você.


PS: Eu ainda não gosto de NOFX e menos ainda da voz do Fat Mike.




quinta-feira, 20 de março de 2014

Click

Entrei no consultório, conversamos sobre os últimos 3 meses - comeu direito? Como foram os treinos? Como se sentiu em relação a bem-estar, energia pra treinar? Como está a planilha de treino agora? Quais os planos? -, ela me apontou a balança, tirei a roupa, me pesei, deitei na maca, ela grudou um monte de eletrodos em mim, a maquininha soltou os numerinhos que disseram quanto tinha de gordura e quanto tinha de músculo. Não teve foto (sim, sempre tem foto, só desejo que ela tenha o notebook mais bem protegido do mundo).

Não ouvi bronca, ouvi "opa, olha só, foram 3 meses, teve festas, férias, Carnaval, foram só 700g, tá de parabéns". "Tá de pa-ra-béns", disse ela. "Faz assim agora, recupera isso aí, perde um quilinho, depois fica liberada de novo no final de semana. Vai ser tranquilo."

E eu me achando a desleixada, a indisciplinada, a zoadona.

Falei sobre a meia maratona, sobre o triathlon de outubro e sobre um outro pra 2015, verificamos juntas as distâncias, ela parou e disse: "sabe o que eu acho? Minha opinião? Treina, corre a meia em agosto, e fica tranquila. Faz as provinhas de 10k na cidade, se quiser. O triathlon de Pirassununga você já daria conta agora. Você vai correr uma meia maratona, o que você corria há dois anos? Há quatro? Você já mostrou que pode, já sabe que pode. Não se desespere porque não tem ninguém pra quem você precise provar nada, nem pra si mesma. Tempo é bobagem. Esquece tempo."

A mesma coisa que me vem sido falada em vários tons faz um tempo, e eu em estado de negação completo, surtando porque nunca mais repeti o tempo que achei tão bom na prova-alvo do ano passado; porque minhas amigas evoluíram e não vi em mim a mesma evolução nem por um segundo. Só que ela esteve aqui esse tempo todo e só eu não via, e a minha ficha caiu só quando ela disse que eu não preciso provar nada nem pra mim mesma. Daí ontem fui ver as fotos das outras 5, 6 mil mulheres que dividiram as ruas de SP comigo no domingo passado, e muitas chegaram com um sorriso satisfeito no rosto independente da distância e da forma como foi percorrida (dá uma olhada aqui pra ver). Eu ia me esquecendo desse sorriso no rosto pra olhar pra números e me chicotear mentalmente. Números num relógio, números numa balança.

Este não é um post sobre esporte - digo isso pra que ninguém venha me acusar de ser monotemática - mas é sobre como a gente se maltrata. Por nada. Por bobagem. E sem precisar.


Esse post é pra todos vocês que repetiram esse mantra "não se maltrate, não se maltrate" tanto tempo pra mim e tiveram paciência suficiente (ou não haha) pra esperar que a minha ficha finalmente caísse.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Às colheradas

*  Tive um surtinho depressivo não muito rápido no fim do ano (acho que já falei disso). Acho que passou, que tá passando. O que ajuda mais é pensar que as coisas têm que ser pensadas, vistas, feitas, vividas um passo por vez, um gole por vez, senão não dá. Igual aqui: ou vai aos pingos ou não vai dar. Agora, pelo menos (eu sei que vocês já ouviram a mesma coisa várias vezes).

* Já falei que tive o pior desempenho de todos os participantes no ciclismo do triathlon de fevereiro aqui na Cidade Coração? Pois é: individual, masculino, feminino, equipes, não teve pra ninguém. Se houvesse uma categoria especial pra seres mitológicos amputados todos os inscritos teriam ido melhor que eu, que pedalava há 3 meses em doses homeopáticas, sem subida e buraqueira. Na volta 3 começou a doer. Quando eu jurava que ia começar a volta 7 passei pelo ponto de cronometragem e gritei "quanto fiz?" e o moço respondeu "tá abrindo a quinta volta". Eram dez. Tive vontade genuína de parar ali mesmo, só que largar a coisa no meio ia me custar muito mais do que, pffff, uma dorzinha lancinante nas coxas (depois tinha uma corrida com 4 subidas duma ladeira tensa, mas aí depois da primeira volta eu desencanei e combinei comigo mesma que só ia finalizar a prova). Mas diz que em outubro tem outro. Ha.

* Daí cabeça vazia e dedos lépidos, outro dia abri um email da caixa de spam, cliquei cliquei escrevi digitei e pimba, quando vi tava inscrita em uma meia maratona no começo de agosto.

* Agorinha mesmo eu tava dizendo que eu tive uma educação musical bem boa: no carro que minha mãe dirigia sempre havia fitinhas cassete variadas, compilações de música clássica, trilhas sonoras (Blade Runner era um crássico), Beatles, Simon and Garfunkel (aquele show no Central Park, é do tempo de vocês isso de S & G?), Ney Matogrosso (a gente achava o máximo uma versão dele pra Johnny B. Goode, em que naquela parte "go Johnny go go" o Ney cantava "foi gol, gol do Mengão, foi gol", juro), Joelho de Porco (opa, procurem aí o Funiculi Funicula deles), Chico Buarque, claro, Milton, Gil, e uma das minhas preferidas era The Mamas and the Papas.



Daí, cara, veio o youtube e arruinou tudo, caí numa espiral de porcaria que nem tenho como descrever. (eu preciso botar a culpa em algo, que seja no youtube)

* Saio lendo por aí uns negócios que me deixam arrepiada. No mau sentido. Daí me autocongratulo por umas decisões que tomei. Mas acho que perdeu-se o pé pra tanta coisa que só resta rir, de nervoso. O melhor é quando a gente começa a seguir rastros e vê umas associações curiosas de ideias e pessoas. E ri mais um pouco.

* "Caçadores de Obras-Primas" não é o melhor filme que já foi feito ambientado na 2a. Guerra e nem de longe é a melhor coisa que qualquer um daquele elenco já tenha feito. Na verdade não é um filme de guerra yadda yadda, mas é uma obra em que o discurso aborda o valor da arte. Vale a pena perder vidas humanas por causa de obras de arte, quadros, esculturas? Vidas de indivíduos valem mais do que registros da cultura de uma sociedade? O que estava em jogo ali não era só a preservação da arte em si, mas impedir um regime de se autoglorificar e de anular e subjugar por meio da supressão de manifestações artísticas e culturais - a arte é um bem imaterial e os suportes têm também valor monetário. Pois bem, o que vale mais? Ó, filminho que eu passaria em sala de aula sem problemas. Rever o sorriso do Jean Dujardin com o pretexto de ~discutir o valor da arte~, aí sim vi vantagem.

* Aquele momento em que você participa de bolão do Oscar e só pode opinar com propriedade na categoria "Melhor animação", porque não viu sequer um filme "adulto", só os infantis. De qualquer forma nessa categoria meu palpite foi certeiro.



* A apresentadora do Oscar pede pizza, daí é ridículo porque é ensaiado; ela junta uma pá de gente muito cool e celebridades da lista AAAAA+ num selfie que roda o mundo e celebra o poder de roliúde e das redes sociais e da tecnologia mas daí a gente não pode achar legal porque é ação de empresa que vende celular, redes sociais explodem por conta de um blog bisonho emulando mal e porcamente o colunismo social jeca (pleonasmo oi?), com fotos de festas "vip" com varal de cuecas ao fundo e comida caída em cima da mesa mas não pode rir porque daí você tá ridicularizando os caras lá da cidade que são excluídos e são patuscos e... olha gente, tá realmente difícil, tem hora, viu? Cê tá lá explicando que não tá rindo do pobre interiorano que acha que é vip, mas que ri da obsessão geral pela noção de vip mas tem gente te fazendo assinar BO. Pra tudo, absolutamente tudo, tudo MESMO vai ter um dedo apontado e vai ter Olimpíada de engajamento, de mazela, e fica difícil nadar num mar em que muito das marolas é subjetividade.  E daí tem coisa que não pode e tem coisa que pode. As maiores bobagens possíveis, as coisas mais minúsculas. Dá pra fazer uma listinha, um fluxograma, dá pra desenhar por favor? Não consigo mais acompanhar esse movimento não.

* existe um negócio chamado "paradoxo da zuera": ela é sem limites se você estiver zoando, mas se for você o zoado...hm......aí complica. Lá de onde eu venho isso tem nome.

* Mais drops sobre analfabetismo histórico e sobre o horror da mania motivacional do Éden Digital, mais conhecido como Instagram (se vocês acham que o Facebook é o reino da felicidade absoluta...então precisam conhecer o Instagram, o lugar onde todo mundo é saudável, motivado, esportivo, e só sai de roupa bonita. Lá não tem calcinha bege descombinada com o sutiã e nem viradão frio comido direto da panela - eu sigo com meus crocs pinks com meia)? Um dia desses uma pessoa postou uma foto de si própria se exercitando ou meditando e colocou uma frase atribuída a...Benito Mussolini. Tá bom pra vocês?

* Voltei a Westeros e ao mesmo tempo me divirto vendo minha mãe por lá. Desculpa Neil Gaiman, Londres subterrânea fica pra outro dia.

* Hoje é dia do Bibliotecário. O que isso significa? Nada, claro, este é só meu plano B em andamento.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O caixotinho, o megafone e o caso do General

É esporte nacional comentar futebol, julgar o outro em função de religião e reclamar de política e ao mesmo tempo proclamar que "tem coisa que eu não discuto de jeito nenhum: religião, futebol e política". Daí vieram as redes sociais e todo mundo sabe o que aconteceu, aquele processo de dar a cada um que as frequenta um caixotinho onde é possível subir para dar e compartilhar opiniões. Muito legítimo isso, aliás.

Daí que a gente vai encontrar por aí quem tá curtindo o governo vigente (estadual, federal, municipal), quem descurte, quem é indiferente, quem está desencantado, quem está muito puto, e por aí vai. É bem fundamental respeitar a opinião dessas pessoas, há ferramentas disponíveis pra gente ocultar as postagens que nos desagradam, em boa parte das vezes é salutar também desenvolver aquele mecanismo de escutar sem ouvir e em muitas delas trata-se também de escolher hora, local e companhia de debate. Claro, a menos que se queira correr o risco de transformar relações familiares, profissionais e círculos de amizades em grandes buffets de rodízio de tortas de climão. Pra mim tá ótimo fazer cara de alface ultimamente, cansa menos a beleza e gasto menos o meu tempo com discussão que não vai parar em lugar algum (não, não é condescendência, eu realmente não quero debater nada online). E poxa, preciso conviver com gente que não pensa da mesmíssima forma que eu, vivo ensinando meu filho que diferença é coisa pra ser respeitada então vamos ser coerentes.

Oquêi. Então em meio a uma aparente onda conservadora assolando redes sociais, brados de formadores de opinião falando a favor de grupos de justiceiros, ofensas a membros do governo, reclamações sobre a destruição da família tradicional (eu primeiro dei risada porque é muito vintage isso de "destruir a família tradicional" e depois fiquei chocada), encontrei o que deve ter sido a maior pérola dos últimos anos (e andei vendo uns negócios de arrepiarem os belos cachos da barba do Moisés de Michelangelo):


As opiniões a respeito da "profecia" do nosso sábio General eram em geral positivas: "é isso mesmo", "pura verdade". Vamos afastar a possibilidade de ser sarcasmo e nos concentrar no fato de que há pessoas considerando sensata uma opinião como esta saindo supostamente da boca dum militar que governou o país durante o período de ditadura.

Primeiro de tudo: foco na abnegação desses homens comprometidos com o bem-estar de sua população. Altruísmo em estado bruto. Antes o país estava nas mãos de gente decente, séria, agora estamos entregues à bandalheira - sendo que agora = vocês sabem do que estou falando. Das últimas 3 gestões, do partido que inventou a corrupção, pelo menos no que se pode depreender do que as pessoas falam, postam, compartilham.

Segunda coisa, e mais importante: que tipo de pessoa consegue considerar possível, plausível, factível, cabível ou seja lá o que for a noção de saudade de um regime ditatorial cuja sujeira o país vai levar muito tempo ainda pra limpar (se o fizer um dia)? Eu compreendo que seja bastante natural esse negócio do saudosismo, de achar que antes era muito melhor, mas fiquei muito chocada pensando que as pessoas não se dão conta do fato de que em um regime militar elas sequer teriam meios e liberdade para se posicionar de forma contrária ao governo. As pessoas apagaram em poucas décadas de abertura todo o horror dos anos de governo militar e porque estão ressentidas (sim, é puro ressentimento) e achando tudo uma bosta (eu não tô feliz, me decepcionei muito, mas oi?) resolvem passar recibo do seu imenso desconhecimento, da sua ignorância histórica colossal pra pedir uma moralização que não só não existiu como também era baseada na privação de direitos básicos do indivíduo. As pessoas não têm vergonha disso, acho que é o que resume tudo pra mim. Eu tenho vergonha de admitir quando desconheço um assunto ou quando sei que meu conhecimento é parcial, é incompleto, ou vou lá atrás de mais informação ou fico quieta no meu canto, mas nego não tem vergonha de mostrar que não entendeu porra nenhuma a respeito do que significou um período muito ruim da nossa História. É bonito fazer papel de ignorante desde que seja pra dar brados em cima do caixote e dizer que é "politizado".

Saudade do Regime Militar eu não tenho não, só sinto falta do tempo em que as pessoas não achavam o último grito da moda usar mouse e botão de "compartilhar" como metralhadora giratória. Era menos ruidoso, menos triste e a gente tinha menos a impressão de que falhamos como país na missão de educar seus cidadãos.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Com o bonde de 2014 já andando

Gosto de viradas de ano, em geral. Acho que Reveillon é uma festa com menos compromisso social e moral do que Natal - o que não significa que  não seja questionável a data em si, uma formalidade de um calendário específico. Mas nossos dias e nossas horas são formalidades dadas por um contexto específico. 31 de dezembro e 1o. de janeiro são só dias, um dia depois do outro, de qualquer forma. A rigor nada muda espontaneamente em função do avanço de ponteiros e do início de uma folhinha de papel nova, começada depois de se jogar a antiga fora (não foi meu caso, a minha de 2013 era um calendário fofo da Mafalda e ainda não estou pronta pra tacar no lixo).

Enfim. Viramos o ano, já é o segundo mês, dois meses sem vir escrever basicamente porque eu achava que não tinha qualquer coisa de relevante pra vir dizer que já não tivesse dito por aí. Porque não tinha qualquer coisa pra expor que valesse a visita, fossem imagens ou pensamentos. Li coisas, assisti coisas, vi gente mas daí nada.

De qualquer forma comunico a todos que algumas promessas de final de ano já estão sendo cumpridas, outras estão em progresso porque são de longo prazo. Por mais que ande me angustiando com isso de planejar as coisas e pensar adiante admito que a existência de uma rotina a ser cumprida me acalma. Daí minha terapeuta (pois é, agora tenho uma terapeuta e está sendo legal e já me ajudou muito em alguns episódios aí) diz "você anda tendo pensamentos obsessivos. você se cobra demais. você precisa relaxar". A moça falou comigo em só 4 sessões até agora, veja como as coisas são.

Daí que tinha prometido comprar uma bicicleta e usá-la para participar de um triathlon curtinho aqui na cidade mesmo, e check: comecei meus treininhos de bicicleta e de transição (são os treinos em que a gente faz mais de uma modalidade. Meu pai outro dia insistiu que natação, ciclismo e corrida não combinam porque não são "harmônicos", seja lá o que isso signifique, e lembro dele toda vez que desço da bicicleta e começo a correr mentalizando aquele verso imortal do Araketu, "o corpo todo estremece, as pernas desobedecem", sabe?), a prova é daqui a uma semana. Também já fiz uma corrida noturna na semana passada, depois de uma semana de férias sem treino e sem restrição alimentar. As pernas duras e pesadas, a respiração difícil.

Cortei o cabelo mais curto, estou me obrigando a passar protetor solar todos os dias, a usar cremes para o rosto à noite. Não tenho conseguido abrir mão do efeito estupefaciente da televisão ou da tela na hora de dormir. Voltei a ouvir música no trabalho e estou abandonando o fone de ouvido nos treinos de corrida. Não peguei O tempo e o vento pra reler mas emendei meu segundo Neil Gaiman depois do Natal e já peguei na pré-venda o último livro lançado pelo George R. R. Martin só porque sinto falta de Westeros. Rendi-me aos encantos de um smartphone todo afrescalhado. Não engordei um grama depois das festas e nem depois da viagem com comilança e fui aporrinhar minha nutricionista perguntando se posso estar doente porque oras, não é possível - farei o mesmo com os outros médicos que verei durante a semana, se me conheço bem. Não tenho cozinhado mas tenho acordado muito cedo pra dar conta dos treinos todos sem ter que enfrentar o calor extremo do final da tarde.  Senti vontade de ir ao Lollapalooza ver Muse e Nine Inch Nails. Prometi a mim mesma que até maio corro uma meia maratona e em dezembro viajo a Belo Horizonte para correr a Volta da Pampulha. Lamentei não ter registros da São Silvestre caseira que fiz com meus irmãos e minhas cunhadas (uma correndo, uma no apoio) no último dia do ano.

Viajei, voltei, voltei ao trabalho, voltei à rotina alternativa do horário de trabalho trocado mas voltei. É isso, essa enrolação toda só pra dizer que estou de volta.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dando uma satisfação aos leitores, apoiadores e, opa, pros detratores

Daí que ontem foi minha última corrida "valendo medalhinha" no ano, daí que nessa eles premiam até o quinto colocado de cada categoria e opa, ganhei um trofeuzinho.

Tudo lindo, tudo bonito, mas não gostei do meu tempo, rendi bem até o km 8,5 e o final era TODO subida no calor, minha rotina de treinos nas últimas duas semanas ficou quebradona porque fiquei doente (não, não estou usando o saco de desculpas não, o calor aqui é tão miserável que eu costumo sair pra fazer treino longo às SETE da manhã de domingo porque não aguento se for correr às 8, que foi a hora da largada dessa prova de ontem). Então muita alegria muita festa, mas é igual a gente fala sobre vestibular e concurso e qualquer outra prova: é UM momento, qualquer fator vai lá, altera o resultado da bagaça e então soa o sad trombone. Eu podia sim ter feito um tempo melhor e sim, tô chateada, mi-mi-mi-mi (nem vou dizer quantas pessoas havia na minha categoria, porque aí a chefe vem aqui e me torce o pescoço).

Nem tudo está perdido, gostei dessa foto da chegada


Mas tudo bem, encerrei o ano esportivo dignamente, do ponto de vista oficial. Os treinos continuam, dia 31 vou fazer uma São Silvestre informal lá na Terra Natal (porque ir a SP correr nesse dia é fora de cogitação pra esse ano), dia 2 estamos de volta, etc.