A internet é uma coisa linda, é uma coisa maravilhosa, mas andei fazendo umas contas e uns noves-fora e concluí, pessimisticamente (como é meu costume), que ela não está rendendo o que podia, o que devia. Que ela isola pessoas em gueto e as transforma em autoritárias.
É um movimento que me parece similar àquele rebote da linda e prática invenção que é o telefone celular: ele nos permite conversar a qualquer hora e em qualquer lugar com as pessoas, nos permite que sejamos localizados, mas somos brindados com conversa alheia e barulho em qualquer (eu disse QUALQUER) lugar e situação. Você lá almoçando e a pessoa urrando ao celular. Eu sei, eu sei que não é o aparelho, são as pessoas. Mas elas ganharam esse poder, ou ao menos se sentiram investidas dele. E o usam como acham que lhes convém.
Voltando à internet, aos ambientes virtuais e às redes sociais: dentro daquele universo de pessoas que têm acesso a ela há uma democratização da possibilidade de expressão, o que significa que efetivamente mais pessoas podem se comunicar e falar o que querem. Isso é sensacional e é sem precedentes, penso eu. O problema é que de um modo geral estamos desaprendendo a conviver com a voz do outro, tão desagradável. Estamos perdendo a noção da convivência, do limite de autoexposição e exposição alheia. E estamos nos enclausurando.
Eu tenho, de fato, a prerrogativa de ir lá na minha lista do Facebook e desassinar ou excluir todas as pessoas cujo discurso ou cujas ações me incomodam, todos os que me questionam, ainda que fora da vida digital conviva com elas. Só que eu passo a agregar em torno de mim mesma só meus pares, só quem vai, de fato, bater palmas praquilo que eu digo ou faço. Sigo então, falando amplificadamente dentro da caixinha e pensando dentro da caixinha. Minha voz não sai daquele círculo e a discordância não chega a mim. Passo a ter dificuldade em lidar com a opinião alheia e passo a demonizá-la. Reforço tons que me desagrado.
Parece bem apocalíptico, muito dramático, como é do meu feitio mesmo. Mas vou exemplificar.
Meses atrás apareceu um tuíte de um sujeito que fazia algum comentário sobre sexo com crianças. Isso mesmo. Ele não dizia que fez, ou que faria, ou nem "façam aí, é legal". Então houve grande comoção a respeito. Comecei a pensar se a fala do indivíduo era mesmo incitadora, ou se era apenas uma manifestação de estupidez travestida de "brincadeira", e fiquei também ruminando sobre o limite entre uma manifestação pessoal infeliz e uma potencialmente criminosa. Resumindo, fiquei pensando em qual era a diferença entre uma fala de mau gosto, uma ofensa e uma incitação - como a lei estabelece isso? Não tenho respostas ainda, não cheguei a qualquer conclusão e ninguém soube me explicar.
Então rebentou um tempo depois uma discussão sobre Monteiro Lobato e o racismo em suas obras, houve quem defendesse que elas fossem banidas, houve quem dissesse que elas deveriam vir com uma advertência a respeito do conteúdo, muita gente falou como ofendida, falou pelos ofendidos, todo mundo falou. Escrevi
um texto que foi muito mal aceito, apesar de eu ter feito ressalvas e ter explicado qual meu incômodo, e nele mencionava a questão do Lobato. Apaguei, porque me foi dito que a questão estava descabida ali, e o texto continuou lá, íntegro, como continua íntegro meu questionamento-base: sabemos lidar com a voz do outro, apesar de querermos que ele lide com a nossa? Como lidar com a tensão entre nosso direito à fala e o direito do outro?
Será que não estamos mesmo desaprendendo a discutir, com todas as possibilidades de enclausuramento digital que nos são oferecidas, e será que não estamos apenas aproveitando mais a possibilidade de associação para "brincar de turba"? (tive uma experiência recente com isso. Teve lá sua graça, mas esgota a paciência e come tempo. E não acrescenta absolutamente nada - a discussão central, sobre machismo/feminismo/machistas cretinos/feministas mal-amadas, vejam só quanto clichê - foi uma daquelas que o pessoal compara a jogar xadrez com pombos: não vale a pena, o pombo derruba as peças e caga no tabuleiro). O caso infeliz lá do cara do "gagau"*: se a gente faz o que é muito indicado e pouquíssimo seguido, que é na dúvida interpretar a pessoa da melhor forma possível, a gente acredita no sujeito e na justificativa de que era um texto ficcional, então temos ficção mal escrita. Do contrário temos só mais um sujeito injuriado que resolveu ironizar a PEC das domésticas. O que, na minha humilde opinião de pessoa cansada de briga e ruído, não justifica o levante de uma gigante onda de acusações e suposições, de vasculhamento da vida pessoal do sujeito.
Acho que pra quem já está incluído digitalmente o desafio é bem mais complexo: não basta só fazer a casinha virtual, a gente não tá aprendendo a conviver direito com o vizinho, e quando a bola cai do nosso lado do muro a gente vai lá, rasga o couro à faca e ainda lambreca de cocô pra devolver, com um bilhete malcriado.
Isso realmente não leva a lugar algum.
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* um rapaz escreveu no Facebook um texto, supostamente à moda do Luís Fernando Veríssimo, em que sua filhinha pequena procura a empregada às oito da noite pra que ela lhe faça seu "gagau". O pai não pode fazer, a mãe não pode fazer, e a empregada argumenta que também não pode, porque não vai receber hora extra e já trabalhou oito horas por dia. Segue-se longa ironia à lei promulgada que regula o trabalho doméstico, sobra pra Dilma também. Digo que deve ser ficção de má qualidade, se o que o autor alega é verdade, porque o recurso à pobre criancinha que quer o gagau é coisa pobríssima (eu poderia perguntar aqui "e o gagau dos filhos da empregada, quem faz?", mas isso é outra história e, como disse, estou propensa a comprar a versão do cara, que disse que aquilo é ficção).