sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Eu, um filho, dois gatos, um cachorro

Estive fora uns dias, com a certeza absoluta de que não havia qualquer coisa que valesse a pena compartilhar com qualquer pessoa a respeito de mim, da minha vida.

Não há mesmo, é tudo banal e comum, ordinário e corriqueiro. Mas banal e corriqueira é a vida de todo mundo, até onde sei, embora haja um movimento bastante forte no sentido de se proclamar cada um "especial" em sua individualidade e cada dia vivido um "presente divino a ser desfrutado com felicidade".

Hmmmm...não. Não é tão feliz quanto a rede social azul nos faz crer (não, quanto as pessoas lá querem que acreditemos), nem tão ferrada e atrapalhada quanto querem mostrar na rede social do passarinho (já pensaram nisso? as pessoas se tornaram bipolares digitais, o ápice da felicidade e da atividade numa aba de navegador, o cúmulo do "life sucks" em outra). Não sou hipócrita não, eu já embarquei e embarco nessas ondas aí, apesar de não soltar mais meus pios em 140 caracteres.

Certo, chega de problematização.

Na minha vida banal, corriqueira e ordinária fiz algumas escolhas e elas me trouxeram aqui: ocupo minha cadeira do local de trabalho no horário comercial "normal", e começo o expediente depois de deixar meu filho na escola, de onde ele sairá apenas no fim da tarde. Ele está gostando, antes lá do que em casa com outra pessoa, que pode inclusive precisar faltar e me deixar numa situação complicada, etc. Meus horários da corrida retomada há pouco mais de um mês passaram para o período 12-14h, o que vai me garantir um bronzeado bacana apesar das marcas de relógio, regata e short, e que vai me tornar mais resistente ao calor e ao sol.

As noites são para serviço doméstico e cuidados com criança pré-adolescente, gatos e a nova aquisição da pequena família: um cachorro de pouco menos de dois meses. Não estava corrido o bastante, as coisas não estavam suficiente cronometradas, então trouxemos o Leozinho pra casa. Ele ainda não aprendeu a fazer xixi no lugar correto mas já tem o hábito encantador de ir buscar brinquedinhos e - ooops - meias e sapatos pra levar pra caminha dele. Então não temos mais sapatos espalhados nem brinquedos no chão. Até consertei minhas gavetas desbeiçadas pra evitar que ele se aventurasse em seu conteúdo.

Fiz escolhas e não me queixo delas, em absoluto e pelo contrário. O engraçado é perceber que depois de meses numa espécie de corda bamba emocional eu ganhei uma segunda virada de ano, uma segunda chance, justo quando a vida prática, comum, banal, corriqueira e ordinária ficou mais exigente. Cabelos penteados no carro, café da manhã (= resto do pão na chapa que o filho não quis mais) engolido no caminho para o trabalho, panelas no fogo às sete da manhã, vida pessoal adulta após 22h ou em finais de semana alternados (as tias véias podem perguntar "e os namoradinho?" e eu vou responder "oi, tia?" com o mais sincero dos sorrisos), mas o "adeus ano velho, feliz ano novo" ecoa todos os dias na minha cabeça. E esse é o maior dos muitos privilégios que eu tenho e que me desautorizam a reclamar de qualquer coisa, por mais incômoda que pareça.

Sejam bem-vindos ao meu idílio doméstico e pessoal alternativo.

Sim, também estou achando esquisito. Vamos aproveitar.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Diário fragmentário de uma masoquista confusa

Conheci um sujeito incrível que era (é, ele tá vivo até onde eu sei) a cara escritinha do Mark Ruffalo. Mas assim. Escritíssima. Foram uns dias, legal, bacana, estrelinhas, anjinhos, sininhos, o doce farfalhar dos ipês floridos, mas não virou nada mais. Fiquei triste. Mas continuo seguindo, com desolação bisonha, o instagram do Mark Ruffalo-ele-mesmo. Às vezes solto um suspiro.

*   *   *

Tenho que tomar cuidado com minha tendência à depressão. Patológica. Parte do CID que eu chamo de meu. O isolamento é uma tentação. Mas daí a euforia e a vontade de sair pra rua, fazer novas amizades (sim, amizades, igual ao Gasparzinho, não usei eufemismo pra dizer "quero ir pra rua dar pra todo mundo", que tá frio e tenho preguiça e como diz aquele velho ditado horroroso "às vezes não vale a pena levar o porco inteiro só por causa de uns gramas de linguiça"). Eu tento. Daí eu me chateio, como o Gasparzinho, porque não consigo fazer amigos. Daí a terapeuta e os vídeos e as imagens bacanas da rede social dizem que eu preciso aprender a me amar, a me ver como minha melhor companhia. Daí eu passo uns pares de finais de semana muito felizes dedicada ao meu filho, a mim mesma, à casa, e quando sobem os créditos do Game of Thrones eu me dou conta de que naqueles dias falei com apenas 3 pessoas: meu filho, o pai dele, o rapaz do café que me atendeu enquanto eu lia ao sol na tarde de domingo. E estou feliz, tranquila, em paz. Conto pra terapeuta, feliz da vida, ela diz "mas tem que ver isso aí de curtir isolamento, hein".

MAS HEIN?

*   *   *

Na página de portal tinha uma notícia: "Goleiro Bruno se casa na prisão".
Eu cliquei na notícia pra ver. Acabou minha noite.

*   *   *

Acabei de começar um seriado que curti muito. Me empolguei. Descubro que ele foi cancelado. Vou continuar a ver, mesmo que fique "rabo" pra trás.

*  *  *

Não posso gastar dinheiro. Mas não é assim, "ai queria aquele vestidinho, hihihi, vou parcelar no cartão e pago aos poucos". É não posso mesmo, fui lá e piquei meu cartão, cancelei um monte de coisas, canto a música do Balu o dia todo. Estou tendo problemas com crises de ansiedade durante alguns treinos de corrida. Meus triglicérides quadruplicaram em um ano, mesmo com esporte e alimentação razoavelmente regrada. Corro com a leveza de um orangotango entregador de menires.

O que faço? Me inscrevo pra duas provas, uma delas uma meia maratona noturna em São Paulo.

O que estou fazendo no momento? Estou me martirizando de medo de passar mal, passar vergonha, me frustrar.

*   *   *

Muito bem, Flipper.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Áries

I

Você me olhava e me ouvia com adoração, enternecido como se eu fosse um bebê de cristal. Eu me senti confortavelmente aninhada no umbigo do mundo - que é como meu tipo de gente (e o seu também) gosta de estar. Pequenina e delicada, ao mesmo tempo uma partícula poderosíssima capaz de explodir o mundo, mudar o sentido da rotação do planeta.

Só que esta ariana control freak e absolutamente sem paciência começou a perder as estribeiras com o ariano que fazia as vezes de ferido e ofendidíssimo e que punha a culpa de todo e qualquer infortúnio ou revés em qualquer coisa palpável, real ou sobrenatural, menos em si próprio. Cansativo. Ela fez o que parecia mais sensato: correu sem olhar pra trás, claro, mas se manteve visível.

Um dia você reapareceu, fui amistosa. E você colocou a pique o que sobrava dessa cordialidade fazendo o que fazia de melhor: falando o que não devia e fazendo julgamentos canhestros e não-solicitados. Você se desculpou. Mas.

Adeus.

II

No segundo dia:

- Você é de qual religião?
- Nenhuma. Sou ateia.
- Como assim, não acredita em Deus?
- Não.
- [indignação mode on] Você não acredita no ar que respira??

No quarto dia:

- Mas que cheiro de cigarro é esse? Você fuma?
- Não, mas encontrei e abracei um amigo que fuma. Eu gosto de cigarro mas sei que é péssimo e não fumo.
- Ih, já vi tudo.

(Enquanto isso eu estava fazendo um esforcinho pra sublimar o mau gosto pra roupas e acessórios e pulseira e correntes de ouro que considerava meio cafonas, a louvação da bebedeira, pensando "tenha paciência, o rapaz é trabalhador, bonito")

Adeus.




Epílogo: 

Arianos, sempre morrendo pela boca.

sábado, 28 de maio de 2016

Somente o necessário

Um dia o amigo querido, que já estivera no mesmo vagão de trenzinho fazendo a mesma volta, disse que haveria uma temporada de euforia, de onipotência, de efervescência. É claro que eu me neguei a acreditar, "sou/estou bem resolvida demais pra isso".

É claro que houve uma temporada em que pude tudo, quis tudo, ampliei horizontes e limites. Estive fora uns dias numa onda diferente e provei tantas frutas que te deixariam tonta. Daí um dia a velocidade das rodas começou a diminuir, a composição parou, eu desci.

Então subiu uma névoa, uma poeira densa, como se algo imenso tivesse sido jogado de grande altura, deixando suspensas partículas infinitas. Através daquela nuvem eu não via e ouvia, mal via ou sentia a mim mesmo, ela me apartava do mundo.

Quando tudo se dissipou eu vi que tinha realmente cumprido o destino profetizado pelo amigo e acreditado que aquela vida era necessária e aquelas cores, os sons, movimentos frenéticos e as pessoas eram necessários também. Não eram - provavelmente necessários eram os efeitos sobre mim naquele momento (oi, querido, onde quer que você esteja, um beijo).

O silêncio nunca me caiu tão bem, a quietude e a forma como me adaptei aos dois e às peculiaridades de um tempo diferente me trouxeram uma paz inédita. Então talvez na quarta-feira eu ligue o computador, conecte o Skype e diga "Eu não preciso mais dos olhos e das palavras de ninguém. Eu sou necessária só para mim mesma. Acho que estou livre."

quinta-feira, 26 de maio de 2016

As voltas

Quando éramos graduandos bocoiós costumávamos deturpar ideias e conceitos. Assim, só pra fins humorísticos, pra tentar extrair alguma gozação de algo sério, sisudo, importante - eu disse que eramos bocoiós, galhofeiros. Uma dessas coisas era o mito do eterno retorno, que mais de uma vez avacalhamos trazendo-o à força pra microscópica dimensão das nossas vidas graduandas galhofeiras. Então não só o Universo decairia, se destruiria e renasceria, mas nós também ficaríamos em moto contínuo passando pelos mesmos pontos e lidando com os mesmos conflitos e situações até o fim. Como se ficássemos dando voltas num trenzinho de parque, aqueles pra criancinhas.

Mas pândega à parte, não é que existe algo de verdadeiro nessa ideia? Às vezes a gente acorda e tá no mesmo vagãozinho, ou patinho, ou porquinho, ou abelhinha. Ou conseguimos pular de vagão (um mais colorido, talvez? Um bicho que esteja mais no topo da cadeia alimentar?) mas as voltas continuam e passam pelos mesmos lugares.

É o que os não-incréus dizem sobre "Deus castiga" (nunca entendi essa fé masoquista, essa adoração a uma entidade vingativa e punitiva. Um bedel, juiz e executor ao mesmo tempo agindo eternidade afora). Ou os místicos dizem "o Universo devolve".

Acho cruel. Não acredito em nada, nem em deuses, nem no semáforo nem na força das instituições tradicionais e aprendi a não acreditar nem nas pessoas, às vezes nem em mim ("sometimes my mind plays tricks on me"). Prefiro dizer que o mundo dá umas voltas doidas e às vezes a gente está no carrinho que percorre o traçado da pista, às vezes a gente já deu a voltinha e observa do lado de fora, pensando "já passei aí".


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Será que ela vem?

Eu sei que ela vai chegar ou se aproxima porque é quase um beijo de dementador. É uma espécie de ralo que se posiciona sob meus pés e leva num fluxo contínuo tudo o que me faz andar leve, toda a expectativa, os planos e as vontades.

Eu sei que ela chegou não porque perceba um peso, mas porque sinta um monte de ausências dentro de mim. E porque elas não me afligem, de qualquer forma. Sair, correr, me vestir, ir ligar a televisão, chamar qualquer pessoa pra conversar, rir. Interessar-me, investir, arriscar, ver o sol, abrir a geladeira, deixar que a música me desligue do mundo. Abrir as janelas da casa e da alma. Resistir. Prefiro assim, tudo escuro e o mais silencioso possível, a claridade e os sons lá fora, longe de mim. E eu não me importo, nem por um instante.

Ela está aqui.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Reveses e Capricórnio: quase um epílogo

A crise. O golpe. O fla-flu. Os formandos em Medicina exaltando, em suas becas, o deputado homofóbico, machista e violento. O tempo que esfria-esquenta-esfria-esquenta. Os editores em polvorosa, o trabalho que se empilha. Os triglicérides que foram de 56 pra 206 em exatamente um ano. O peso que não desce porque insisto em preencher vazios com açúcar e demais carboidratos simples (claro que agora parei). Mais uma dorzinha acolá, que somada a uns 15 dias de crise depressiva me tirou da corrida por 3 semanas, e agora o retorno é doloroso e visualmente grotesco. As contas: quebra máquina, carro pra revisão, licenciamento, habilitação, multas, retorno ao psiquiatra. Os pneus estão ruins, tem que trocar. O celular vai-não-vai. Dor de cabeça. A Netflix vai subir. Roupas de frio. O quilo da pera, o preço do tomate. Não consigo levantar cedo pra nadar, se levanto fico com sono, levo bronca da terapeuta porque é preciso dormir bem. A cabeça zunindo. Desistências. Desânimos.

Mas a cabeça dribla a alma meio surrada e negativa e insiste na piada de palhaço meio tristonho, daqueles quadros meio cafonas, meio assustadores: na hora de pagar a facada da revisão do carro ("esse valor podemos parcelar só até 4x, senhora") passo o cartão, digito a senha e verifico, aliviada, que o limite ainda não foi batido, mas falta pouco, quero nem ver a fatura no começo do mês. Faço um cálculo rápido e cogito entrar para o ramo do entretenimento adulto, aos 40 e com estrias na pancinha.

Pego a chave com a atendente, entro no carro, conserto a altura e a distância do banco e penso "olha só, capricorniano, estou triste, cansada, acima do peso, de nariz inchado por causa da rinite, não faço unhas há meses e estou de cara lavada porque não tive tempo nem vontade de nada, mas agora dá pra passear de carro comigo. Tá regulado e limpinho, que tal, vamos dar uma voltinha na avenida?".

E não disse mais nada a mim mesma.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Que isso não pareça uma apresentação de powerpoint cafona

Que dê abraços quentes e tenha aperto de mão firme. Que não te julgue. Que não te diminua e não te compare (porra, o que custa não comparar?). Que te acompanhe. Que saiba hora de começar. E de parar. Que não te explique tudo. Que não se explique o tempo todo mas tenha a educação de não te largar no vácuo, pensando se vai procurar na polícia, nos hospitais e necrotérios. Que não exija prestação de contas, quaisquer que sejam. Que não te dê senhas. Nem as peça. Que não te demande o truque da transformação em outra pessoa. Que resista quando você demandar o mesmo. Que compreenda quando você explicar que não é questão de "animação" (já viram que fofo aquele post de facebook que ensina a pessoa a fazer um "casulinho" de cobertor pra confortar outra pessoa?). Que te deixe ficar em silêncio, por que não? Que peça seus silêncios e seu tempo também. Que não te afaste com grosseria injustificada. Que compreenda que pedir desculpa pra porcelana não faz com que ela se emende de volta sem marca - até porque às vezes tem aquele pedacinho que entra debaixo dos móveis ou nos vãos dos tacos já meio antigos e sem manutenção devida. Que te mande à merda quando você começar a usar de p(m)aternalismo e condescendência. Que não te trate como criança nem pessoa com problemas cognitivos. Que não desista de si e nem de você, oremos, desistência é muito triste. Que conheça o conceito de empatia e o aplique. Que saiba que generosidade com iguais não é generosidade, é tapinha nas costas. Que não espere que você peça socorro, porque te observa mesmo de longe. Que não minta, é o básico. Que seja de qualquer porcaria de signo. Must love dogs. Cats. Birds and the bees and the flowers and the trees. Que ouça música, no silêncio também. Que não te avacalhe muito por causa das suas listas e das coisas pueris que você escreve. Não muito, um pouco só.

O básico, apenas.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Enta.

Alguém (que pode ser entendido como uma pessoa ou uma força imaterial ou uma linha de senso comum coletivo ou mesmo uma alucinação corpórea ou incorpórea, ou seja, qualquer coisa) me fez crer que os 40 eram os novos 30, com a vantagem estupenda de que com a a beleza madura estabelecida viriam também uma certa experiência e a sapiência e segurança de quem já passou por poucas e boas. Então, olha, fiz 40 há algumas semanas. Estou esperando, já faço jus. Cadê? Por que acordo com conflitos de 19? Veja bem, os conflitos, não a bunda, os peitos, a barriga, o rostinho, o brilho no olhar. Continuo passando vergonha no consultório da nutricionista, continuo me arrastando na pista de corrida (agora voltando de mais duas semanas paradas por conta de dor no quadril) e estou pronta a responder a qualquer pergunta com crise de choro e bater de portas. Aos 40. Não incorporei o mantra da autoaceitação e de quebra acho que quando o faço estou na verdade sendo autoindulgente, não resolvi o problema da crença de que sou uma fraude - pelo contrário, você sabe o que é viver por 40 anos comigo? Nem minha mãe sabe, nem ela aguentaria. Não voltei a crer em grande-amor-da-vida. Estou sem vontade de procurar qualquer sombra disso que seja. 40. 40. 40. O que faço de melhor agora que cheguei? Ah, tenho que esperar mais? Tá certo então. Posso comer alguma bobagem enquanto espero? Sim, eu sei, o metabolismo vai indo pra casa do caralho e eu engordo mais fácil e demoro mais a perder peso. Entendi, deixa pra lá.

*****

A irmã de um conhecido do meu pai surtou: tirou a roupa e saiu pela rua. Foi recolhida e internada em um hospital psiquiátrico. Dizem que estava sem tomar remédios. Sabe o que acontece agora? Meu pai fala comigo e me pergunta se estou tomando meus remédios direitinho. Nem sei o que penso, fico feliz porque meu pai se preocupa comigo? Fico deprimida porque ele acha que existe um risco real de eu não tomar remédios, surtar e sair pelada pela rua? Fico deprimida porque existe sim um risco real de eu não tomar remédios, surtar e sair pelada pela rua? Certo, deprimida já estou, mas olha, pai, quero dizer que se eu cogitar tirar a roupa na frente de alguém, mesmo medicada e consciente, já pode ligar pra viatura vir me buscar.

*****

Ouvi ontem uma palestra motivacional (sim, sério. Lembre-se, eu já ouvi palestra do Pondé em ambiente corporativo. Fui obrigada. Pelo menos podia resmungar e fazer careta, era por videoconferência) e o sujeito, depois de fazer uma ótima associação entre a "escola da tristeza", em que o aluno fica o ano todo esperando passar de ano, que prepara para o "mercado de trabalho da tristeza", em que o funcionário passa o tempo esperando o fim do expediente, o fim de semana, os feriados, as férias, a aposentadoria, concluiu que passamos o tempo esperando a vida passar. O foco fica tanto no depois que o agora fica esquecido. Mas daí, cara, agora tá complicado. Borrado, ruim, triste, seja o que for. Como faz pra viver a vida sem expectativa (eu sei, "crie cavalos, peixes, camaleões, cabras, crie pulgas amestradas mas não crie expectativas", diz a sabedoria de rede social)? Como faz pra negar que no fim das contas não vivemos pra acordar-trabalhar-dormir-acordar-etc etc etc?

***** 

Se beber não dirija. Não telefone. Não tecle mensagem de whatsapp. Se acordar mal não facebooque. Não blogue. Não exista, de preferência. Durma, se possível, até passar.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Aquário

Quando ando por São Paulo fico intrigada com a forma como as pessoas dominam sua cidade. Como ocupam seu espaço, como se locomovem. É como se elas tivessem um código próprio, um mundo alternativo - o que não deixa de ser verdade. Mas penso em como deve ser transpor aqueles espaços todos, compreender (ou não) a lógica das coisas e o andamento do tempo, que corre em ritmo diferente do tempo daqui.

Coisas de matuta, roceira. Que ainda olha pro topo dos prédios. Que ainda não considera triviais os nomes das ruas.

Pensei em como você domina seu tempo e seu espaço. O que ouve? O que faz ao longo do dia? Como lida com as tarefas de casa? Por onde espalha os livros que está lendo? No que pensa quando está em silêncio, quando perde o sono? O que coloca no carrinho do supermercado?

Pra São Paulo tem mapa. Tem Waze. Tem metrô. Tem gente pra ligar e dizer "oi, me busca, eu me perdi". Tenho menos medo de me arriscar naquelas ruas.

UPDATE/CONTINUAÇÃO: E seus caminhos não são pros meus pés. Com meus sapatos não consigo ir longe sem tropeçar. Pena.


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