quinta-feira, 16 de maio de 2013

Extraordinárias

É fácil se adaptar ao diferente, ao pouco usual. Gostar do extraordinário é bom e é uma delícia. Amar aquela pessoa que parece ter tanta fome de viver é simples, quase automático, porque ela parece tão mais colorida do que as pessoas comuns no ponto de ônibus, percorrendo corredores de supermercado; ela parece ser extraordinária. Difícil mesmo é gostar do café-com-leite, da vida-PF, de quem se vê todo dia de cara amassada e roupinha comum, de quem acorda-trabalha-chega-janta-dorme. O discurso do Urso Balu, de "necessário, somente o necessário" parece tão imbecil - às vezes a gente precisa tanto do desnecessário.

Confesso que há bastante tempo já passo pelos dias e tento sobreviver à opacidade e à falta de cor da rotina fazendo um "mapeamento" de situações diferentes por acontecer e fazendo contagem regressiva - além daquela que a gente faz pra chegar ao sábado, claro. Uma viagem, uma mudança, um curso, uma corrida, situações especiais que colorem um pouquinho as coisas, que chacoalham o torpor e a corrida contra o relógio de sempre. É como ter um calendário e marcar o que vai ser diferente com um X grandão e contar os quadradinhos até lá.

*    *     *

Acho sensacional acordar, lembrar do sonho e perceber que ele se desvanece ao longo das horas. Sobram farrapinhos, detalhezinhos, pedaços de lembranças, às vezes algo como se fosse um retrogosto, mas na cabeça só.

*    *     *

Enquanto isso, anoitece em certas regiões.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

O início, o fim e o meio

A gente nasce, cresce, estuda, vai pra escola e se prepara pra vida adulta. Espera-se que ela consista na ida para uma faculdade, de onde vamos sair para o Mercado de Trabalho, essa entidade incorpórea dominante, ou que seja marcada pela própria entrada direta nesse mundo.

Então a gente trabalha. Estabelece nossa rotina em função dele, ou da melhora dele, da obtenção dele, da mudança dele. Assim como em tantas casas existe na sala uma espécie de altar cerimonial para a televisão também existe um altar metafórico para o Trabalho. A base de tudo, o meio e ao mesmo tempo o fim.

Supostamente o trabalho serve pra gente ter uma vida produtiva (?), pra contribuir para a sociedade (??!), pra gente poder ter conforto, construir um patrimônio. E a gente segue, vai seguindo, onde já se viu viver sem ter condições de cumprir suas obrigações para com a sociedade, que absurdo não produzir, não pagar impostos, viver sendo sustentado por alguém ou alguma instituição.

E então a gente acorda, escova os dentes, penteia cabelo (ou não, hohoho), se veste, toma café e vai pro trabalho. De onde sai (ou não!) pra almoçar, pra onde se volta até o fim da jornada do dia, trata dos outros compromissos, dorme, começa um novo dia [reelabore essa sequência conforme as particularidades da sua rotina, mas no fundo é a mesma coisa, hm?]. Aí a gente recebe salário e vai lá e compra roupa melhor pra ir trabalhar mais apresentável. Compra um colchão melhor pra cama pra gente poder dormir melhor e não ter sono nem dor nas costas no trabalho. Corta o cabelo, compra barbeador pra fazer barba e não ir desgrenhado(a) ou barbudo pro serviço. E no final de semana a gente dá uma descansada, porque segunda chega logo, e tem o trabalho.

Ridi, pagliaccio!

Eu queria saber mesmo em que parte do processo a gente passou a viver do trabalho no sentido de trabalho-fim e não trabalho-meio. Em que ponto a gente se desligou do resto e se plugou com força nessa engrenagem toda. E queria saber também como faz pra puxar o fio, como faz pra conseguir cortar essa relação cretina. Não me entendam mal, eu gosto do que faço, tenho um ótimo emprego, estudei muito pra consegui-lo (arrá, olha só o que eu disse antes) mas só questiono como seria abrir mão de parte dessa jornada que parece tão imprescindível em meu próprio benefício, em benefício da minha família. Em como fazer pra que meus anseios não sejam sufocados em prol de trabalho-produção-contribuição. Em como ter uma vida que não seja tão pautada nisso (fico lembrando daquela piadinha de dizer "xi, o trabalho está me atrapalhando a vida social"), sem sentir que estou tendo um prejuízo de padrão de vida ou de perspectivas ou de futuro.

Porque de repente eu me enfezei um pouquinho com tudo, com a corrida contra o tempo miúdo, de minutos e horas, e contra o tempo maior, os anos que vão sobrar pra mim depois que eu me aposentar, quando meu filho já estiver devidamente inserido e encadeado nessa máquina toda, já andando da mesma forma cadenciada como eu andei, o pai dele também, e os avós e os bisavós e o pessoal lá atrás. Quem será que esteve fora disso?

Talvez dormir faça passar. E amanhã vou trabalhar mais feliz.

sábado, 4 de maio de 2013

O peso

A uma semana do Dia das Mães reparei no anúncio do shopping: " A mulher mais completa da sua vida merece um shopping mais completo". Não me detive na questão do consumo enunciada ali, como era de se esperar, mas na ideia de "mulher mais completa da sua vida" - sendo que essa é a mãe.

Primeiro pensei "ui, Édipo, um beijo", e me passaram pela cabeça todos os exemplos anedóticos ou não de mães possessivas, batalhas entre sogras e noras pela atenção do filho, até a minha mente ser brecada pela constatação de que opa, peraí, não é só homem que tem mãe, mulher também. Então supostamente a mulher mais completa da minha vida é minha mãe, e ela merece um shopping mais completo, blá blá blá (eu já acho que a minha mãe merece a chance de viajar pra onde quiser sempre que quiser, ela que adora viajar e é uma companhia para viagens das melhores que já conheci. Se eu ganhar na mega-sena é esse o presente, tá mãe?).

Mas minha mãe não é a mulher mais completa da minha vida. Não sei se ela um dia quis sê-lo. Eu não sou a mulher mais completa da vida do meu filho - sou um referencial importantíssimo, claro, mas eu hein? Mais completa?

Quando a gente aborda especificamente o peso da maternidade e mesmo da condição feminina é disso que estamos falando: a noção injusta de que precisamos ser multitarefa, perfeitas, overall, precisamos desempenhar tudo em todas as áreas com o máximo de eficiência, eficácia, e se possível com um sorriso de enlevo no rosto.

Mas não precisamos. E não devemos. Eu não quero ser a mulher mais completa da vida do meu filho, até porque isso se choca com um princípio fundamental pra mim: criar meu filho pra ser independente, o famoso "meu filho é do mundo, não é meu" (isso costuma ser expresso nas redes sociais por meio de uma citação falsamente atribuída ao Saramago, que duvido que tenha escrito isso alguma vez. Já vi uma versão que diz até "filhos são emprestados por Deus" e dei risada - Saramago, ateu público e notório, me explicando candidamente que existe um Deus que nos empresta nossos rebentos por um tempo). Se eu quero que meu filho seja independente, tenha asas, como é que vou querer que ele se vincule a mim nesse nível, de me considerar a mulher "mais completa"?

Não quero ser posta num pedestal. Nem pelo meu filho nem por ninguém. É claro que eu quero ser amada, querida, admirada, o olhar brilhante do outro é sedutor e confortador, é gostoso, não? Mas se eu fico lá sendo adorada recai sobre mim uma responsabilidade terrível que é bancar essa adoração toda, justificar esse culto. Então isso quer dizer que eu não posso mais falhar, não posso pisar fora da linha, não posso decepcionar aquela pessoa que me ama tanto; isso significa que eu posso chegar às raias da anulação dos meus desejos, dos mais banais aos mais profundos e caros, porque eu preciso fazer jus a toda aquela adoração.

Você acompanha meu raciocínio? É cruel colocar uma pessoa num altar, como divindade, seja ela criança ou adulto. É bobo, é pueril elevar alguém a uma categoria quase mística, porque ninguém é divindade, ninguém é infalível, e as pessoas podem ter interesses e desejos que não vão bater com aquilo que o outro, na posição de adorador, vai esperar.

Também não quero adorar ninguém, pelo mesmo motivo, e porque não quero me decepcionar. É gostoso gostar das pessoas, mas é salutar - embora dolorido - o exercício de pensar na falibilidade de qualquer uma delas, de moderar expectativas. É o famoso desapego. Eu amo meu filho, cuido dele com carinho e não posso evitar as expectativas a respeito do que ele vai ser, do que vai gostar, mas não posso impor nada disso a ele e também não posso ignorar o fato de que sim, ele pode vir a ser completamente diferente do que eu imaginava quando ele era um gurizinho magrelo e meigo de seis anos de idade. Como vou lidar com isso mais à frente é outra história, e não deixo de pensar nos casos de pais e mães que denunciaram filhos criminosos - quantos terão protegido os seus, em contrapartida? E como classificar ou hierarquizar o amor de alguém que denuncia ou que acoberta um filho que cometeu algum crime?

Esse não é um libelo pela anulação do amor, do bem-querer e nem uma queixa específica a respeito de ser mãe/ser mulher. Mas é um texto meio desencontrado (escrito com o fundo nada musical do confronto e da birra infantil) pra lembrar que a gente se preocupa em não gastar, não consumir demais, mas não se preocupa tanto assim em não se consumir, não consumir o outro com esse peso gigante que é o da adoração e da cobrança que vem acoplada a ela.

domingo, 28 de abril de 2013

Efemérides

Circulava pelos emails, uns poucos anos atrás, uma dessas apresentações de Power Point que contava a história de uma mulher que tinha morrido de câncer e o marido, ao ir procurar alguma coisa no guarda-roupa, encontrou uma caixa com uma linda camisola que a esposa havia comprado numa loja cara e nunca havia usado porque tinha ficado esperando a ocasião perfeita. Era assim a história ou era contada ao contrário, com a mulher comprando a camisola, morrendo de câncer e só então aparecendo o marido e encontrando a caixa.

Melhor lição de vida do mundo.
A conclusão era aquela previsível: a mulher morreu esperando um momento que não aconteceu ou aconteceu e ela não identificou, então aproveite a vida, etc. A moral da história não era o problema, nunca foi, o que me incomodava era a pieguice da história, era a cafonice do formato, a noção de "olha, puuuta lição de vida" - sempre essa noção impositiva do que é e não é lição de vida e de que você, pequeno gafanhoto, devia ouvir isso.

Então morreu uma das minhas tias-avós maternas há duas semanas. A correria de sempre pra providenciar aquelas coisas desagradáveis, as elocubrações coletivas sobre as tias que estão vivas, todas bem idosas, mas morando longe do restante da família, e depois toda a burocracia que se segue a um falecimento, muita coisa beirando o tragicômico.

Mas morreu minha tia-avó, a festeira, a que identificávamos como bagunceira, animada, a que fazia palhaçada, a que estudava francês e passou um ano sozinha em Cannes, já idosa, a que pintava, que foi mocinha trabalhar no Projeto Rondon, em mil novecentos e guaraná com rolha, a miudinha, de pele e olhos bem claros, de cabelo claríssimo desde que posso me lembrar. Ela morreu sem conhecer meu filho porque elas haviam se tornado mais reclusas depois de perderem um irmão (e parte da culpa é minha, obviamente, e meu choro era e é ainda muito baseado nesse sentimento), ela morreu sem reconhecer minha mãe da última vez que se encontraram, ela morreu sem que tivéssemos conseguido fazer muita coisa pra ajudar. Numa madrugada de segunda-feira ela morreu, ploft, e a descrição do fato nos documentos que passaram pela minha mão me chocou todas as vezes. Agora estão lá as coisas dela, os documentos dela, estão por aí os quadros e as lembranças dela, a maior parte divertida.

Hoje é mais um domingo ordinário, em que acordei tarde, tomei café da manhã gostoso, passei o dia de roupa de dormir, assisti jogo de basquete na televisão, presenciei uma birra medonha do meu filho porque exigi usar a televisão por hora e meia, não penteei os cabelos, peguei o jornal na porta do apartamento; domingo de futebol na televisão, de brincadeira no playground, de barulhos e silêncios, de lasanha no prato.

Esse post é pra contar que nesse domingo ordinário decidi abrir a caixa que ficou fechada por uns cinco anos e coloquei meus faqueiro novinho em folha em uso, fazendo par com os pratos que encafifei de comprar no começo do ano passado e com uma toalha já meio velhusca. Almocei de roupa de dormir na sala em desordem, mas abri meu faqueiro novo e bonito e coloquei as peças na mesa. Finalmente.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Foi só uma brincadeirinha

Por onde começo?
Pelo relato do que chegou pelos portais de notícias, linkados aqui e ali, em todo lugar, transformando pelo menos as minhas redes sociais em monotemáticas: uma mulher vai entrevistar um homem, que está lançando um livro, e este se aproxima e enfia as mãos por baixo do vestido dela. Ninguém interfere.

Pareceu a você violento, repulsivo?

E se eu disser pra você que a moça atacada trabalhava com roupas curtas, justas, decotadas, que faz aparições constantes na mídia, é vista como símbolo sexual, depende da própria aparência para trabalhar? Muda alguma coisa?

Espero que pra você não mude. Não deveria mudar.

O que aconteceu com a apresentadora do programa "humorístico", famoso pela pauta duvidosa e pelo mau gosto (não paro de lembrar do caso da Panicat careca), acontece com todo mundo, só dar uma perguntadinha por aí e torcer para encontrar alguém que tope se expor e relatar. Aconteceu comigo também. Uma pessoa passou por mim na rua, um menino que aparentava ter a mesma idade que eu (uns 13 ou 14 anos) e enfiou a mão nos meus peitos enquanto descia a rua que eu percorria em sentido contrário. Ele continuou andando e eu congelei no lugar, envergonhada e indignada, logo a seguir me sentindo culpada por não ter reagido de alguma forma. Hoje contei isso em voz alta a uma pessoa pela primeira vez, depois de mais de vinte anos.

Sabe aquela cena de filme que mostra a pessoa que sofreu um abuso debaixo do chuveiro se esfregando freneticamente, tentando lavar da pele e quem sabe da cabeça a agressão? Ela não é ficcional, nem um pouco. Só que a gente tenta lavar também uma vergonha que não se sabe de onde vem, a gente tenta lavar a sensação de incompetência e também de impunidade - o mesmo moleque pode ter feito o mesmo com outras meninas, outras mulheres, quem sabe? E quem sabe o que pode ter acontecido a ele?

Quem é o outro pra vir me dizer que "foi só uma apertadinha nos peitos"? Quem é o outro pra dizer que o ataque - porque o nome é esse - é "brincadeira"? O outro pode ser, por exemplo, o patrão da entrevistadora atacada em frente a muitos fotógrafos e pode ser cada uma das pessoas que viu a cena acontecer e não se moveu.

Diz pra mim aí, se você for atacado(a) da mesma forma no seu local de trabalho você reagiria ou acharia tudo uma brincadeira? Não entendo por que a moça deveria achar, mas entendo que ela dê declarações à imprensa dizendo que "se fosse fora do trabalho teria tido um tapinha" - ainda que no twitter ela tenha dito que se chateou e que espera que passe logo a chateação.

Entendo que a questão não é o pinto (pardonnez mon Français) que o agressor tem no meio das pernas, é o poder que o indivíduo exerce; e é sobretudo (e mais uma vez) a demarcação da inferioridade da mulher agredida que sobressai. Entendo bastante, também, o fato de que a situação é de uma assimetria gritante, uma funcionária que depende da visibilidade, da imagem pública para viver - então a reação pode ser algo, além de tudo, prejudicial ao emprego dela. Imagine se ela reage e enfia um soco na cara do sujeito ou uma joelhada no saco dele, você vislumbra uma possibilidade de processo impetrado pelo agredido ou uma demissão, ou um ato de contrição por parte dela? Não enxergo ali como opção plausível uma declaração dela "opa Fulano, foi só uma brincadeira essa joelhadinha que te dei nas partes, viu? Dá cá um abraço, querido!"

A emissora responsável pelo programa sempre terá como último recurso a edição de imagens e a propagação da versão de que era tudo uma armação, tudo combinado desde o início. Nesse caso lamento mais uma vez a irresponsabilidade de quem produz entretenimento popular no país e continua, em nome de audiência, de uns cliques e umas menções a mais, passando a imagem de que uma violência pode ser só uma brincadeira.

Pena que as outras tantas vítimas de violência, de abuso (um estupro ou só uma "bobeirinha", uma bolinadinha assim, de nada), homens e mulheres, não tenham sequer uma segunda versão pra apresentar por aí. Essas aí vão se enfiar no chuveiro, se lavar até a pele arder, vão se virar com a memória e a culpa. Sozinhas.

domingo, 7 de abril de 2013

A tradução é...

Fazia muito tempo que não me divertia tanto como naqueles dias. Que não ria e dançava livre, solta, como nesses minutos todos. Feliz.


As algemas e mordaças digitais, as grandes ondas, os pombos jogando xadrez e o gagau

A internet é uma coisa linda, é uma coisa maravilhosa, mas andei fazendo umas contas e uns noves-fora e concluí, pessimisticamente (como é meu costume), que ela não está rendendo o que podia, o que devia. Que ela isola pessoas em gueto e as transforma em autoritárias.

É um movimento que me parece similar àquele rebote da linda e prática invenção que é o telefone celular: ele nos permite conversar a qualquer hora e em qualquer lugar com as pessoas, nos permite que sejamos localizados, mas somos brindados com conversa alheia e barulho em qualquer (eu disse QUALQUER) lugar e situação. Você lá almoçando e a pessoa urrando ao celular. Eu sei, eu sei que não é o aparelho, são as pessoas. Mas elas ganharam esse poder, ou ao menos se sentiram investidas dele. E o usam como acham que lhes convém.

Voltando à internet, aos ambientes virtuais e às redes sociais: dentro daquele universo de pessoas que têm acesso a ela há uma democratização da possibilidade de expressão, o que significa que efetivamente mais pessoas podem se comunicar e falar o que querem. Isso é sensacional e é sem precedentes, penso eu. O problema é que de um modo geral estamos desaprendendo a conviver com a voz do outro, tão desagradável. Estamos perdendo a noção da convivência, do limite de autoexposição e exposição alheia. E estamos nos enclausurando.

Eu tenho, de fato, a prerrogativa de ir lá na minha lista do Facebook e desassinar ou excluir todas as pessoas cujo discurso ou cujas ações me incomodam, todos os que me questionam, ainda que fora da vida digital conviva com elas. Só que eu passo a agregar em torno de mim mesma só meus pares, só quem vai, de fato, bater palmas praquilo que eu digo ou faço. Sigo então, falando amplificadamente dentro da caixinha e pensando dentro da caixinha. Minha voz não sai daquele círculo e a discordância não chega a mim. Passo a ter dificuldade em lidar com a opinião alheia e passo a demonizá-la. Reforço tons que me desagrado.

Parece bem apocalíptico, muito dramático, como é do meu feitio mesmo. Mas vou exemplificar.

Meses atrás apareceu um tuíte de um sujeito que fazia algum comentário sobre sexo com crianças. Isso mesmo. Ele não dizia que fez, ou que faria, ou nem "façam aí, é legal". Então houve grande comoção a respeito. Comecei a pensar se a fala do indivíduo era mesmo incitadora, ou se era apenas uma manifestação de estupidez travestida de "brincadeira", e fiquei também ruminando sobre o limite entre uma manifestação pessoal infeliz e uma potencialmente criminosa. Resumindo, fiquei pensando em qual era a diferença entre uma fala de mau gosto, uma ofensa e uma incitação - como a lei estabelece isso? Não tenho respostas ainda, não cheguei a qualquer conclusão e ninguém soube me explicar.

Então rebentou um tempo depois uma discussão sobre Monteiro Lobato e o racismo em suas obras, houve quem defendesse que elas fossem banidas, houve quem dissesse que elas deveriam vir com uma advertência a respeito do conteúdo, muita gente falou como ofendida, falou pelos ofendidos, todo mundo falou. Escrevi um texto que foi muito mal aceito, apesar de eu ter feito ressalvas e ter explicado qual meu incômodo, e nele mencionava a questão do Lobato. Apaguei, porque me foi dito que a questão estava descabida ali, e o texto continuou lá, íntegro, como continua íntegro meu questionamento-base: sabemos lidar com a voz do outro, apesar de querermos que ele lide com a nossa? Como lidar com a tensão entre nosso direito à fala e o direito do outro?

Será que não estamos mesmo desaprendendo a discutir, com todas as possibilidades de enclausuramento digital que nos são oferecidas, e será que não estamos apenas aproveitando mais a possibilidade de associação para "brincar de turba"? (tive uma experiência recente com isso. Teve lá sua graça, mas esgota a paciência e come tempo. E não acrescenta absolutamente nada - a discussão central, sobre machismo/feminismo/machistas cretinos/feministas mal-amadas, vejam só quanto clichê - foi uma daquelas que o pessoal compara a jogar xadrez com pombos: não vale a pena, o pombo derruba as peças e caga no tabuleiro). O caso infeliz lá do cara do "gagau"*: se a gente faz o que é muito indicado e pouquíssimo seguido, que é na dúvida interpretar a pessoa da melhor forma possível, a gente acredita no sujeito e na justificativa de que era um texto ficcional, então temos ficção mal escrita. Do contrário temos só mais um sujeito injuriado que resolveu ironizar a PEC das domésticas. O que, na minha humilde opinião de pessoa cansada de briga e ruído, não justifica o levante de uma gigante onda de acusações e suposições, de vasculhamento da vida pessoal do sujeito.

Acho que pra quem já está incluído digitalmente o desafio é bem mais complexo: não basta só fazer a casinha virtual, a gente não tá aprendendo a conviver direito com o vizinho, e quando a bola cai do nosso lado do muro a gente vai lá, rasga o couro à faca e ainda lambreca de cocô pra devolver, com um bilhete malcriado.

Isso realmente não leva a lugar algum.


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* um rapaz escreveu no Facebook um texto, supostamente à moda do Luís Fernando Veríssimo, em que sua filhinha pequena procura a empregada às oito da noite pra que ela lhe faça seu "gagau". O pai não pode fazer, a mãe não pode fazer, e a empregada argumenta que também não pode, porque não vai receber hora extra e já trabalhou oito horas por dia. Segue-se longa ironia à lei promulgada que regula o trabalho doméstico, sobra pra Dilma também. Digo que deve ser ficção de má qualidade, se o que o autor alega é verdade, porque o recurso à pobre criancinha que quer o gagau é coisa pobríssima (eu poderia perguntar aqui "e o gagau dos filhos da empregada, quem faz?", mas isso é outra história e, como disse, estou propensa a comprar a versão do cara, que disse que aquilo é ficção).

terça-feira, 2 de abril de 2013

Do costume

Num táxi no meio da cidade grande, tumultuada e lotada não podia parar de pensar "eu não sirvo pra morar aqui, não ia conseguir me adaptar". Como todas as vezes penso, aliás. Cada visita gera uma nova torrente de pensamentos, a reafirmação de que não sou dali.

Mas às vezes não sou daqui também.

Um dia fiz uma tatuagem com o desenho de uma fênix. Quis que ela ficasse em um lugar onde pudesse ser vista sempre que eu olhasse por algum espelho, assim sempre que eu me visse eu ia enxergar o lembrete grande e colorido de que é importante saber se refazer, levantar, renascer - a coisa mais importante para uma pessoa conseguir seguir adiante vida afora, foi o que pensei na época. Aí hoje penso que se encontrasse um símbolo legal que representasse a capacidade de adaptação com certeza ele iria parar no meu ombro esquerdo - embora eu reconheça que a adaptação a uma situação diferente possa ter a ver com renovação. Andam de mãos dadas, as duas.

De volta à cidade menor. De volta à rotina que um dia precisei construir e reconstruir e que agora me traga de novo depois de uns dias de refresco (a esses a gente nem precisa se acostumar, não? Chega e tudo já é confortável). De volta ao esforço de adaptação constante.

terça-feira, 26 de março de 2013

Feito tatuagem

Há coisas que são compostas com o objetivo tácito e confesso de fazer menção a algo que se viu ou que se leu; da mesma forma escreve-se sobre o que se ouviu, e os criadores não escondem nada quando falam sobre sua inspiração, seus objetivos. É gostoso ver como uma obra transcende um gênero, como pode sair assim, na maior desfaçatez, de mãos dadas com várias Musas (já falei um tiquinho sobre isso num dos meus posts preferidos).

Bom mesmo é quando esses laços não são claros e se é livre para juntar pecinhas. A memória não segue sempre uma lógica, então um determinado som constante em alguma época ou que marcou uma situação vai ficar associado a páginas, a imagens, assim, sem mais. Ninguém mais vai te entender ou de repente você encontra até gente solidária que já pensou na mesma coisa.


Quando comecei a ouvir com mais cuidado (leia-se no repeat) o "My head is an animal", do Of Monsters and Men, eu começava a ler um livrinho do Ray Bradbury, Uma Estranha Família. Tudo começava em tom soturno, com a voz do narrador me conduzindo à estranha casa, antiquíssima, que fala sem palavras, que tem vida própria e que é, ela mesma, um membro da família esquisitíssima, meio monstra, meio humana, aguardando seus visitantes para uma comemoração.


Então os islandeses cantavam


I don't like walking around this old and empty house
So hold my hand; I'll walk with you, my dear
The stairs creak as you sleep; it's keeping me awake
It's the house telling you to close your eyes. (Little Talks)





O último verso evocando as manifestações da casa dos Elliot, batendo janelas e portas, rangendo com o vento inclemente. Segui a leitura, acabei o livro, já com saudade. Segui ouvindo a música, meses a fio. Então não sei se por associação direta entre o frio de Winterfell e o frio da ilha de onde vieram os músicos, se por pescar qualquer mínima aproximação entre o que se canta e o que se lê, nunca mais deixei de pensar em Guerra dos Tronos e nas sagas de seus personagens. Então o que pode ser a separação de pessoas que se amam começou a soar como o canto dos Stark, que se separam, tomam caminhos e não voltam a se encontrar.


You're gone, gone, gone away; I watched you disappear
All that's left is a ghost of you
Now we're torn, torn, torn apart; there's nothing we can do
Just let me go, we'll meet again soon
Now wait, wait, wait for me; please hang around
I'll see you when I fall asleep. (Little Talks)


Os relatos de viagens, reais ou metafóricas, que desafiam quem tem um caminho a seguir, a coragem representada na figura do leão. 



And in the winter night sky ships are sailing,
Looking down on these bright blue city lights.
And they won't wait, and they won't wait, and they won't wait.
We're here to stay, we're here to stay, we're here to stay.

Howling ghost they reappear
In mountains that are stacked with fear
But you're a king and I'm a lion-heart.
A lion-heart. (King and Lionheart)



A história de alguém livre pela floresta, garras sujas e pelo grosso, a guerra que chega e desmantela tudo, as crianças-lobo Stark e a neve, sempre a onipresença do frio branco.

Jumping up and down the floor,
My head is an animal.
And once there was an animal,
It had a son that mowed the lawn.

The son was an ok guy,
Thay had a pet dragonfly.
The dragonfly it ran away
But it came back with a story to say.

Her dirty paws and furry coat,
She ran down the forest slope.
The forest of talking trees,
They used to sing about the birds and the bees.

The bees had declared a war,
The sky wasn't big enough for them all.
The birds, they got help from below,
From dirty paws and the creatures of snow.

And for a while things were cold,
They were scared down in their holes.
The forest that once was green
Was colored black by those killing machines.


But she and her furry friends
Took down the queen bee and her men.
And that's how the story goes,
The story of the beast with those four dirty paws.
(Dirty Paws)



Nunca consegui descobrir se mais alguém sente o mesmo que eu. Mas foi assim que um álbum inteiro passou a ter cheiro de neve, a despertar frio, e páginas ficaram acompanhadas de música para sempre.

(aí muitas páginas se passaram, os dias vieram um atrás do outro, chego perto do fim - provisório - da saga e imaginem vocês quão ansiosa eu não estou pra que venha logo o feriado.)

domingo, 24 de março de 2013

Precisão

Você acha que não, mas precisa sim.

Você precisa do feminismo porque um dia, quando tanta gente achava que ele era mais que desnecessário, era imoral mesmo, um grupo de pessoas foi lá e brigou para que você pudesse vestir a roupa que veste hoje, pudesse frequentar a escola de que tanto reclamou na adolescência, pudesse cogitar ir viver com a pessoa de quem gosta - e vejam ainda há quem cogite mas ache que não deve e não pode; essas pessoas que se colocaram em linhas de frente e em bastidores também para que você pudesse deixar de estar com aquela pessoa de quem não gosta mais, depois de tanto tempo (e a gente sabe que "tanto tempo" é uma medida tão imprecisa pra quem está de fora). Então, um dia outras pessoas brigaram e todo dia ainda brigam por isso.

Você precisa do feminismo porque tem gente que apanha todo dia só porque é mulher. Ou criança. Ou gay. Gente que é violentada em vários sentidos e de várias formas só porque tem características específicas e porque há pessoas que acreditam que essas características diminuem, enfraquecem, apodrecem, e isso tudo é passível de violência: o comprimento da roupa, a cor do cabelo, da pele, o tom de voz, as ideias, os desejos, o peso, a idade. Você precisa do feminismo porque há gente no mundo que se considera superior às outras e que acha que essa superioridade não só existe como deve ser provada e afirmada na base da força bruta, do grito forte, da aspereza.

Você precisa do feminismo porque não precisa ser o tempo todo identificado com um ideal masculino que não tem a ver com o que você quer para si; você precisa do feminismo porque quer poder fazer coisas prosaicas como chorar em paz, deixar cabelo crescer, ou dividir as tarefas de casa sem escutar piadas que começam engraçadinhas mas terminam sendo desagradáveis e invasivas; você precisa do feminismo porque não quer ver sendo tratadas como cidadãs de segunda classe as mulheres que conhece, respeita, ama, ou mesmo aquelas que não conhece mas que estão aí pelo mundo.

Você precisa do feminismo porque não quer se casar, ou porque quer casar e não quer ter filhos. Ou mesmo porque quer casar, parar de trabalhar, ter quantos filhos der vontade e ser feliz sem encheção de saco - isso sem falar nas mil possibilidades "intermediárias" e mil arranjos familiares possíveis. Ou mesmo porque quer ter a chance de mudar de ideia quando for o caso.

Você precisa do feminismo porque quer ser mulher. Porque quer ser homem. Ou porque quer ser outra pessoa. E se você quer, você deve poder fazê-lo - como e quando puder.

Você precisa do feminismo porque escolheu esperar. Porque escolheu experimentar. Porque experimentou e decidiu esperar. Ou decidiu experimentar mais um pouco porque nunca é o bastante. Ou então decidiu que não quer esperar nem experimentar.

Você precisa do feminismo porque decidiu que depilar o corpo todo é legal. Você precisa do feminismo porque decidiu que nunca mais depilar é melhor ainda.

Você precisa do feminismo porque as pessoas que começaram quebrando o pau em nome dele te garantiram hoje a possibilidade de fazer escolhas que eram impensáveis pra seus avós. Ou pra seus bisavós.

Você precisa do feminismo porque a vida não precisa ter manual de instruções. Não precisa ter "como fazer". E o feminismo não vai te apontar o caminho, vai só segurar sua mão e vai ficar assim, de mão dada com você pelo caminho que você escolher; ele vai te perguntar "é isso mesmo que você quer agora? Então vambora." E vai com você. Simples assim.

Você pode achar que não necessita do feminismo, mas ele está aí, aqui, ali, em todo lugar, mas maiores ações e nos menores detalhes do dia-a-dia. E se não está, definitivamente deveria estar.

Viver não é preciso, o feminismo é preciso.